Na fria e majestosa cidade de São Petersburgo, o Benfica não fugiu ao malfadado registo das equipas portuguesas que atuam no Petrovsky, saindo vergado. Mais que a derrota em si, viu gorada a hipótese de seguir em frente e a continuidade nas competições europeias confinada a terceiros. Não deu bom resultado, e desta vez não houve Lacazette que valesse aos comandados de Jorge Jesus.

Depositando atenção nos comentários tecidos pela massa adepta, note-se a constante referência à inépcia das equipas orientadas por Jorge Jesus em momentos decisivos. Não querendo enveredar por esse trilho, rendemo-nos perante uma evidência relativa ao Benfica desta temporada: a equipa, quando inserida num patamar de maior exigência e equilíbrio, revela inoperância a vários níveis e demonstra que não serve para muito mais que consumo interno.

Aquando do início da participação na Liga dos Campeões deste ano, Jorge Jesus disse que todas as equipas inseridas no grupo tinham grandes hipóteses de seguir em frente. A derrota atípica diante do Zenit, na Luz, revelou graves fragilidades mas deixou o adepto agradado pela fibra incutida em todas as ações de jogo.

O desaire em Leverkusen revelou uma equipa frágil e, aparentemente, pouco conhecedora das filosofias adversárias. No Mónaco, um empate com sabor bastante agridoce. Na Luz, a esperança dada por uma “taliscada” do moleque. E em São Petersburgo, o golpe final nas aspirações, num jogo que, ainda assim, não foi tão mau quanto isso. Impõe-se fazer uma autópsia ao mesmo, e tocar alguns dos pontos que inviabilizaram vitória benfiquista.

O Benfica iniciou o jogo com uma postura excessivamente respeitadora, de modo cauteloso, com receio de entrar em falso. Jorge Jesus escalonou a formação de uma forma algo diferente da habitual, afastando Talisca de Lima, e colocando o jovem brasileiro mais próximo de Enzo Pérez, no meio-campo. Com Samaris e Enzo Pérez mais recuados, pretenderia ter em Talisca um elemento importante em progressão, que procurasse ripostar em transição e ocupasse espaços no sector intermediário.

Jorge Jesus

Jorge Jesus continua a esbracejar, mas já começa a ser muito contestado pelas opções que toma

O Zenit atacou preferencialmente pela direita do seu ataque, a cargo de Hulk, e a André Almeida coube a difícil missão de neutralizar o extremo brasileiro. Com ajuda de Samaris na dobra, foi anulando as investidas contrárias e desfazendo-se de complexos, assumindo de peito feito a exigência da sua função.

A saída de Lombaerts devido a lesão, por volta do minuto 20, funcionou como tónico para o Benfica crescer no jogo. Pressionou mais em cima, equilibrou as ações, mas a ideia que ficava do primeiro tempo era a de uma equipa ineficiente no capítulo ofensivo. Gaitán e Salvio demoraram a perceber que a sua qualidade em termos técnicos era superior à dos respetivos opositores, e que podiam apostar no 1×1. No centro do ataque, longe da melhor forma, Lima pouco trabalhou e também se pode queixar da falta de apoios.

A meio-campo, o grego Samaris cometeu demasiados erros a nível do posicionamento, reagiu mal sob pressão e, diga-se a bem da verdade, foi simultaneamente vítima das más decisões de Jardel que insistia em colocar bolas pela zona central em situações de aperto. Foram vários os passes falhados no meio-campo encarnado. Pouco jogo canalizado pelos flancos e demasiadas tentativas de sair a jogar pelo meio.

Os amarelos dados a Jardel, Luisão (acabaria expulso) e Samaris durante o primeiro tempo condicionaram bastante a ação defensiva do Benfica.

O Segundo Tempo

O segundo tempo revelou uma águia de alma renovada, com outro ar, determinada em sair de São Petersburgo com os três pontos. Falhou uma e outra ocasião. Lamentou-se a ausência de uma verdadeira referência de ataque e a confirmou-se que Lima está longe da forma que outrora evidenciou, e a equipa tinha dificuldades em jogar consigo. Suspirou-se por Jonas…

Aos 70 minutos, Jorge Jesus abdicou de Talisca e surpreendeu ao fazer avançar Derley. Não pelo que a substituição acarretaria em termos táticos, – o Benfica voltava ao esquema habitual com dois homens na frente – mas sim pela má prestação de Lima que não justificava a sua continuidade em jogo. A alteração revelar-se-ia um tiro nos pés das aspirações encarnadas.

Danny

Danny, de quem se fala estar nos planos encarnados, foi o carrasco do Benfica

Com Enzo Pérez esgotado em função da influência que exerceu tanto a nível ofensivo como defensivo durante o jogo e Samaris amarelado, libertaram-se espaços para os russos explorarem, e Hulk aproveitou para servir Danny que, no interior da área, marcou e deu um rude golpe nas aspirações dos encarnados. A jogada de Jesus, no risco, fragilizou a estrutura da equipa.

Na reta final do encontro, e note-se que mais uma vez não esgotou as três alterações, JJ colocou Ola John em campo. O holandês, bem ao seu estilo, investiu em jogadas individuais e teve sucesso. O sangue novo e capacidade técnica de Ola John chegaram tarde mas, sublinhe-se, trouxeram algo de novo ao jogo e fica a nota para opções futuras.

O Benfica está fora das provas europeias, e com atenções centradas na revalidação do triplete interno alcançado na época passada. O plantel, bem diferente relativamente ao da temporada transata, pareceu não revelar suficiência para combater de forma competitiva em todas as frentes. Janeiro será um mês fatigante para os benfiquistas. Fora dos grandes palcos, temem a perda de algumas jóias da coroa. Confrontado com a situação na flash interview, Jorge Jesus esquivou-se, e considerou esse tema uma… invenção.

Boas Apostas!