Apesar da polarização e entusiasmo que se tem estabelecido na Premier League, fruto do elevado nível competitivo e a presença de jogadores e treinadores de topo, é inegável que o futebol inglês continua a transpirar tradição.

O fenómeno do football é transversal e vai muito além das quatro linhas. Trata-se de uma paixão geracional que move multidões. Clubes que ultrapassaram a marca dos 100 anos e que mesmo assim, resistem ao tempo e persistem nas suas conquistas.

O Wigan Athletic Football Club é dos poucos clubes cuja presença no principal escalão inglês causa estranheza. Não tem mais de 100 anos de existência, não conquistou muitos títulos e o seu estádio, DW Stadium, raramente apresenta lotação esgotada, contrariamente à tendência dos restantes emblemas ingleses, mesmo em divisões inferiores.

Wigan tem uma população de pouco mais de 80 mil pessoas, tornando-se complicado competir com grandes clubes vizinhos, como é o caso do Manchester United, Manchester City e Liverpool. Contra todas as expectativas os latics iam permanecendo na Premier League.

O caminho até ao topo não foi fácil mas com muita ambição e coragem o Wigan alcançou a tão desejada Premier League. Em 1996/1997 a equipa disputava a terceira divisão, em 2002/2003 participava no segundo escalão e em 2005/2006 já estava entre os maiores clubes ingleses. Na época de estreia, o conjunto orientado por Paul Jewell obteu a melhor classificação de sempre. 10º lugar com 51 pontos, juntando-se ainda a final da League Cup onde perdeu por 4-0 frente ao Manchester United.

O treinador inglês orientou o Wigan até 2006/2007, ano em que se demitiu a meio da época. O seu adjunto, Chris Hutchings, assumiu o cargo e deu início à temporada 2007/2008. Em Novembro, o presidente do clube, David Whelan decidiu despedir Chris e fazer regressar Steve Bruce que terminou o ano em 14º.

Na época seguinte, Bruce liderou o Wigan até ao 11º posto da tabela.

Com o anúncio da chegada de Roberto Martínez, o Wigan mudou de mentalidade, passando a adoptar uma mentalidade mais ofensiva e de futebol de posse, contrariando o estilo conservador da era de Jewell, Hutchings e Bruce.

O futebol vistoso, tecnicista e tipicamente espanhol não conseguiu fugir à luta da permanência, mas garantiu um dos mais importantes títulos do clube, na época 2012/2013.

Figuras

David Whelan e Roberto Martínez são dois nomes a reter no que toca ao sucesso do Wigan em 2012/2013.

Roberto Martínez

Foi com Roberto Martínez que o Wigan ganhou a FA Cup e, no mesmo ano, desceu de divisão

Whelan é um empresário do ramo de equipamentos desportivos. Nascido e crescido em Wigan, nunca escondeu a sua admiração pelo clube da sua cidade. Quando era jovem tentou a sua sorte no futebol mas acabou por não alcançar o destaque pretendido. Em 1960, na final da FA Cup entre o Blackburn e o Wolverhampton, partiu a perna e deixou a sua equipa, Blackburn, a jogar com 10 jogadores. Uma lesão que culminou na derrota por 3-0.

Em 1995 tornou-se proprietário do clube e sob o seu comando o Wigan conquistou a League Two em 1996/1997, o Johnstone’s Paint Trophy em 1998/1999, a League One em 2002/2003 e o troféu mais consagrado da história do clube, a FA Cup em 2012/2013.

O destino juntou Whelan e Martínez na época de 1995/1996. O médio espanhol actuava nos escalões secundários de Espanha e foi contratado para representar o Wigan, permanecendo até 2001. Roberto Martínez participou em mais de 200 jogos pelo emblema inglês. Uma paixão que se estendeu para fora dos relvados, com o espanhol a regressar ao Wigan em 2009/2010 para se sentar no banco de suplentes, depois de um excelente trabalho no Swansea.

Martínez e Whelan formaram uma parceria de sucesso e glória que terminou no mesmo ano em que conquistaram para o Wigan o título mais prestigiado do clube inglês. Em 2012/2013, os adeptos ingleses viveram emoções distintas em apenas 72 horas de diferença. Um caso único de um clube que foi despromovido depois de vencer a FA Cup.

Nos dias que correm, Martínez é treinador do Everton e Whelan tenta recuperar a glória de um emblema que, no mesmo ano que seduziu Inglaterra, também desiludiu os seus adeptos, acabando por cair para o Championship.

Título

A cereja no topo do bolo teve lugar em 2012/2013 com o Wigan de Roberto Martínez a conquistar a FA Cup.

Manchester City 0 - 1 Wigan

Na final da FA Cup, o Wigan defrontou, e derrotou, por 1 a 0, o Manchester City

Nos 32avos, o conjunto orientado pelo técnico espanhol recebeu e empatou contra o Bournemouth por 1-1. No jogo do desempate, o Wigan deslocou-se ao terreno do clube da League One para vencer por 1-0 e seguir em frente. Na ronda seguinte, vitória por 1-0 em casa do Macclesfield Town.

Nos oitavos-de-final, nova deslocação e consequentemente vitória. 4-1 no estádio do Huddersfield Town. Seguiu-se o Everton nos quartos-de-final com o Wigan a ser mais forte em mais uma condição de visitante. Vitória por 3-0.

Nas meias-finais, o Millwall recebeu e perdeu por 2-0 frente ao Wigan. O sonho estava a um pequeno passo à medida que a equipa caminhava para a despromoção na Premier League.

A 11 de Maio de 2013, o Estádio de Wembley encheu-se de adeptos do Manchester City e do Wigan para assistir a um momento único. Aos 90 minutos, Ben Watson foi o herói do jogo e apontou o golo da conquista dos latics. Uma vitória inesperada, onde o factor visitante foi denominador comum no percurso dos campeões. Os campos adversários tornaram-se sagrados para o Wigan, mas só na FA Cup.

No campeonato, a 14 de Maio de 2013, o clube de David Whelan jogava uma cartada decisiva nas suas aspirações. Um último suspiro pela continuidade. No reduto do Arsenal, o Wigan não conseguiu o resultado positivo que alcançou a jogar nessa mesma condição na FA Cup e acabou por sair derrotado. 4-1 foi o resultado final e, consequentemente, Roberto Martínez viu a sua equipa descer de divisão.

Boas Apostas!