Portugal não o esquece, e é com naturalidade que o eco dos golos que tem feito chegam ao nosso país.

Embora nem sempre bem amado, certo é que os benfiquistas recordam Óscar “Tacuara” Cardozo com um certo saudosismo. A arte de marcar golos, como um dia Jorge Jesus enalteceu, venceu a crítica fácil e confinou-o a uma restrita galeria, que poucos almejam.

Vestir uma camisola 293 vezes ao longo de sete épocas serve para alavancar uma máquina do tempo rumo ao passado. Nos tempos que correm, não são muitos os casos de jogadores que possam gabar-se de ter passado tanto tempo na defesa de um só emblema. O melhor marcador estrangeiro da história do Sport Lisboa e Benfica, Óscar “Tacuara” Cardozo, pertence a esse lote.

Antes de chegar a Lisboa, não se lhe conhecia qualquer raiz que o prendesse ao nosso país ou ao emblema da Luz. Chegava dos argentinos do Newell’s Old Boys com uma só promessa: a de fazer muitos golos.

Tacuara, o Homem-Golo

Conheceu Mantorras, Nuno Gomes, Bergessio, Makukula, Suazo, Saviola, Kardec, Éder Luiz, Weldon, Keirrison, Jara, Mora, Rodrigo, Nélson Oliveira, Lima ou Funes Mori. Um enorme desfile numa dança constante de entradas e saídas, caraterísticas do futebol moderno. Cardozo, por seu turno, teve sempre o respetivo lugar reservado.

Dividia a Luz, mas isso parecia algo alheio à gestão interna. Nunca foi um elemento consensual e é também por aí que se destaca. Foi um dos poucos que ousou mandar calar o terceiro anel aquando de um jogo da Liga dos Campeões, frente ao Hapoel Tel Aviv, fustigado pelos assobios que o brindaram após ter falhado algumas ocasiões de golo.

Juntar esse momento aos empurrões a Jorge Jesus, no Jamor, e a Pedro Proença, na Madeira, são, muito provavelmente, as duas manchas que salpicam um currículo pejado de golos ao serviço da águia e o elevam a um olimpo futebolístico.

Vestiu inúmeras vezes a pele de herói, mas num registo diferente: o de herói sem claque.

É complicado explicar a relação que a Luz tinha com Cardozo e a constante dicotomia que o categorizava, ora como herói, ora como vilão.

Cumpria a sua missão com distinção, mas não era particularmente rápido, não se envolvia em floreados que enchem as medidas aos adeptos e nem sempre concluía da forma mais elegante. Para os adversários, e é isso que conta, a sua presença na área contrária constituía uma grande dor de cabeça. Não só pela sua estrutura física, capaz de tirar o sono a qualquer defesa, mas também pelo instinto mortífero que revelava.

A sua etapa na Luz acabou e decidiu rumar à Turquia para, aos 31 anos, ingressar na sua segunda experiência no futebol europeu.

Em Terras Turcas

Abraçou o projeto do Trabzonspor e encabeça a lista de melhores marcadores do campeonato otomano. Na altura em que escrevo estas linhas, contabiliza 15 golos, os mesmos que Demba Ba e Fernandão. É um dos responsáveis por levar ao êxtase os fanáticos adeptos turcos que fazem as bancadas estremecer enquanto entoam o seu nome, num castelhano particularmente estranho.

A ausência de dribles desconcertantes parece ser uma falsa questão para os adeptos que, em Julho, receberam Cardozo em apoteose absoluta. O avançado paraguaio vem legitimando o entusiasmo e até já igualou uma marca record: jogador estrangeiro com mais golos numa temporada, alcançando os 15 tentos apontados pelo georgiano Shota Arveladze na época 1995/96.

A primeira vez que Cardozo fez a bola embater na rede contrária, em competições internas, reporta-nos à estreia na Superlig turca, em setembro, quando estabeleceu o empate, de penalty, na deslocação ao reduto do Basaksehir.

A estreia a marcar na Liga Europa, pelo Trabzonspor, prova da qual já se sagrou melhor marcador, aconteceu na primeira mão do play-off de acesso frente aos russos do Rostov.

Além do golo de estreia frente ao Basaksehir, Cardozo fez mais nove vítimas na presente edição da Superlig: Mersin IY, Gaziantepspor, Konyaspor, Genclerbirligi, Balikesirspor, Sivasspor, Erciyesspor, Karabuskpor e Akhisarspor.

Os principais lesados pelo pontapé canhão do Tacuara? Genclerbirligi (3), Konyaspor (2), Sivasspor (2) e Mersin IY (2).

Recordado com nostalgia em Portugal, e repercutindo o que de melhor sabe fazer no território outrora pertença do Império Otomano, provavelmente só a barreira linguística inviabiliza a tradução do célebre cântico: “Tenham cuidado, ele é perigoso, ele é o Óscar Tacuara Cardozo”.

Boas Apostas!