É já hoje, Sexta-feira, neste já invernoso 21 de Novembro, que os Tigres da Costa Verde voltam à alta roda do futebol nacional.

O Sporting Clube de Espinho recebe o Sporting Clube de Portugal, em jogo a eliminar para a Taça de Portugal, a alegria do povo, prova rainha do futebol português, onde os pequenos se põem em bico dos pés e fazem tremer os maiores.

Este tigres já foram gente grande. Este Sporting da costa, ali da zona de Aveiro, já conviveu com os grandes, durante vários anos, e os seus jogadores já foram impressos em cromos da bola que as crianças coleccionavam e trocavam.

Foi no final da época de 1996/97, que o Sporting de Espinho se despediu da Primeira Divisão.

A partir daí, nunca mais o clube se voltou a erguer, indo de queda em queda, até estabilizar, agora, pelo Campeonato Nacional de Seniores, que já foi Segunda Divisão B e também Terceira Divisão, dependendo das épocas e das reorganizações.

Adivinha-se assim, portanto, um dia, que será noite, de festa rija, nesta recepção ao Sporting CP, senhores da capital. E que não julguem esses alfacinhas que vão ter vida fácil no Estádio Comendador Manuel Oliveira Violas. O Sporting de Espinho é rijo, orgulhoso, e está ansioso por mostrar que ainda comportam alguma da aura de quando também foram grandes. E estão desertos de o mostrar.

Da Vida de um Clube

O Sporting Clube de Espinho, localizado em Espinho, cidade do distrito de Aveiro, mas ali nas berças do Porto, nasceu a 11 de Novembro de 1914, acabadinho de fazer agora 100 anos.

A cidade de Espinho, famosa pela pesca, pelo turismo, pela praia e pelo casino, também o foi, entre os anos ’70 e ’80, pelo futebol da sua equipa mais representativa e que militava na Primeira Divisão. Embora sempre tenha ficado mais conhecida pelo voleibol, a cidade de Espinho viveu ali um pequeno período de uma certa glória futebolística.

O seu nascimento deu-se em contra-corrente. Enquanto a Europa se preocupava com o início da Grande Guerra, e Portugal tentava sobreviver ao período conturbado da Primeira República, os espinhenses faziam nascer uma agremiação desportiva. Como a cidade, vila na altura, ficava muito perto do Porto, os filhos da gente da terra iam até à Cidade Invicta para dar uns pontapés na bola com as gentes de lá. É que no Porto já havia várias equipas a jogar futebol. Então, um grupo de espinhenses pensou que era bom dar aos filhos da terra algo para lá fazerem. E assim nasceu o Sporting Clube de Espinho.

Estádio Comendador Manuel Violas

Estádio Comendador Manuel Violas, já teve outros nomes, já sofreu várias transformações, mas foi sempre por ali, no meio de Espinho e do coração espinhense

Começou cedo a ganhar troféus, o Sporting de Espinho. Mas à boa maneira portuguesa. Na secretaria.

Estávamos em 1918 e o Sporting de Espinho disputava a final da Taça de Honra com o Salgueiros. Ora, no mesmo dia da final iria realizar-se, também, uma tourada, e o Salgueiros pediu o adiamento do jogo. A Associação de Futebol do Porto não acedeu aos desejos do Salgueiros, acabando por atribuir a vitória ao Sporting de Espinho alegando falta de comparência do Salgueiros. E, assim, os tigres da Costa Verde ganharam o seu primeiro troféu, 4 anos depois da nascerem. Mas como são gente de boa índole, propuseram, eles próprios, ao Salgueiros, a realização de uma final a sério, jogada pelas duas equipas, mas num campo em Espinho. O Salgueiros aceitou, mas o Sporting de Espinho voltou a vencer, desta vez em campo, por 4 a 0, e garantiu a Taça, desta vez em campo, onde esteve boa assistência (falou-se para cima de 2.000 pessoas), na sua grande parte, imagine-se, senhoras.

Embora o Sporting Clube de Espinho fizesse parte da Associação de Futebol do Porto desde a sua criação, em 1924, aparece como um dos sócios fundadores da Associação de Futebol de Aveio, associação à qual passaria a pertencer a partir dessa data.

Em 1925, o Sporting Clube de Espinho participa no Campeonato de Portugal, prova organizada pela Federação Portuguesa de Futebol, e que é uma espécie de antepassado da Taça de Portugal. O Campeonato de Portugal era composto pelos campeões das diferentes associações do pais (as associações eram distritais e, assim, participava uma equipa por distrito, a equipa campeã). E teve um início prometedor, vencendo a Académica de Coimbra, na primeira eliminatória, por 2 a 1. Mas logo no jogo seguinte calhou-lhe o FC Porto e logo perdeu o jogo por 4 a 1 com aqueles que iria ganhar esse Campeonato de Portugal ao vencer, na final, o Sporting CP.

Depois foram passando, os tempos, e o Sporting Clube de Espinho foi crescendo e sobrevivendo.

Com o 25 de Abril, em 1974, coincidência, ou não, os tigres da Costa Verde subiram, pela primeira vez, à Primeira Divisão Nacional.

Telé Gol

Telé, alcunhado Gol, foi o grande avançado do SC Espinho, brasileiro que deliciou o clube nos anos ’70

No último jogo da temporada, o jogo da subida, foi feito contra os vizinhos do União de Lamas e ganharam por 2 a 1, num campo tão cheio de gente que parecia rebentar pelas costuras. Nessa época, o melhor marcador da Segunda Divisão, com 26 golos marcados, foi um avançado brasileiro do Sporting de Espinho, chamado Telé, que não o craque Santana, mas Gol, também craque que, em Espinho, viveu o seu melhor período futebolístico.

Mas essa foi uma época carrossel para o Sporting de Espinho. Depois da subida, na época de 1974/75, e depois de ter perdido o primeiro jogo na Primeira Divisão contra o Vitória de Guimarães, por 5 a 0, fora e depois, em casa, terem feito a sua primeira vitória, ganhando por 1 a 0 ao Vitória de Setúbal, o Espinho termina a época em último lugar e é despromovido. Duas épocas mais tarde volta ao convívio com os primo-divisionários, mas logo, outra vez, para descer de divisão.

Na época de 1978/79, o Sporting de Espinho volta a subir à Primeira Divisão e, desta vez, comandados por Manuel José, o Sporting Clube de Espinho garante a continuidade entre os grandes, e obtém a sua melhor classificação de sempre, um 6º lugar na tabela classificativa. E durante 5 anos consecutivos, o Sporting de Espinho construiu a sua história, permanecendo na Primeira Divisão.

A partir de temporada de 1983/1984, quando voltam a ser despromovidos, nunca mais conseguem a proeza de se manterem por tanto tempo entre os grandes. Voltam a conseguir, por uma única vez, manterem-se por duas épocas seguidas na Primeira Divisão, mas a sua vida voltou a ser de sobe e desce, subindo um ano, para voltar a descer no ano seguinte, até que, no final da época de 1996/97, voltou a descer pela última vez, pois nunca mais conseguiu voltar a subir à Primeira Divisão.

O Breve Regresso ao Sol

Sporting CP 4 - 1 SC Espinho 1981

Em 1981, em Alvalade, o SC Espinho era derrotado pelo Sporting CP por 4 a 1

É assim, neste contexto de uma equipa com pergaminhos que ficaram lá muito para trás, que o Sporting Clube de Espinho recebe, hoje, o Sporting Clube de Portugal, em eliminatória da Taça de Portugal.

Este é o oitavo confronto entre os leões de Alvalade e os tigres da Costa de Prata para a Taça de Portugal. Nas outras sete edições anteriores, o Sporting CP levou sempre a melhor. Não é de esperar que hoje seja diferente. Mas um jogo da Taça é, como se costuma dizer, um jogo da Taça. E pode haver, há sempre, surpresas. Hoje a surpresa poderá sorrir ao SC Espinho. Ou não.

Na época de 1988/89, o SC Espinho conseguiu chegar aos quartos-de-final, onde foi eliminado pelo Belenenses, por 2 a 1. Em 1991/92, voltou a repetir a proeza mas, nos quartos-de-final encontrou pela frente o SL Benfica e foi derrotado por 6 a 0.

Mas as gentes de Espinham andam com vontade de voltarem à história. E gostariam de começar hoje.

Boas Apostas!