A conquista do campeonato fortaleceu a posição de Rui Vitória. O técnico português venceu a desconfiança e orientou o Benfica numa campanha com contornos históricos, ao estabelecer um novo recorde de pontos conquistados (88) num campeonato disputado a 18. Devolveu o Benfica aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, conquistou a Taça da Liga e teve astúcia suficiente para solucionar os problemas com os quais se debateu ao longo da temporada, encontrando soluções a nível interno. Rui Vitória foi igual a si mesmo, resistiu a provocações, não quis entrar em diálogo e conseguiu tirar partido disso para unir a equipa em torno de um objetivo comum.

O verão de 2015 foi particularmente agitado na Segunda Circular. Jorge Jesus terminou contrato com o Benfica e, insatisfeito com as condições propostas por Luís Filipe Vieira, mudou-se para Alvalade. A saída do treinador bicampeão nacional mexeu com o emblema “encarnado” e, apostado em reconquistar o ceptro, Luís Filipe Vieira fez mais uma aposta com cunho individual ao promover o regresso de Rui Vitória ao Benfica, desta feita para treinador principal depois de ter trabalhado na formação. Estamos numa fase precoce temporada, mas a diferença em relação à última época já é notória em termos de planeamento.

Foto: Miguel Barreira

Foto: Miguel Barreira

Assumir os destinos do conjunto bicampeão nacional seria sempre um desafio exigente, ainda para mais quando o técnico que conduzira a equipa nas duas últimas épocas rumou ao rival e deixou os benfiquistas de “orgulho ferido”, por muito pouco consensual que fosse. Rui Vitória precisava de tempo para conhecer os cantos à nova casa, incutir as suas ideias na equipa, estudar o plantel e perceber que lacunas havia para suprimir e averiguar a possibilidade de ir ao mercado, mas a ida do Benfica para os Estados Unidos com o intuito de disputar a International Champions Cup atrapalhou a preparação. A equipa foi obrigada a deslocações constantes, teve poucas sessões de treino, as condições não foram as melhores e a disputa da Eusébio Cup no México, a escassos dias da Supertaça, foi mais um erro de planeamento que atrapalhou a preparação do Benfica para a Supertaça Cândido Oliveira. Rui Vitória saiu derrotado do primeiro embate com o Sporting de Jorge Jesus, vitimado por um planeamento infeliz em termos de pré-temporada. Este ano, a pré-época terminou a uma semana do início da Supertaça. O Benfica começou a preparar o plantel para a nova época ainda no ano passado, realizou o estágio de pré-temporada em St George’s Park e deixou boas indicações nos jogos que realizou. Nico Gaitán deixou a Luz, Renato Sanches também rumou à Baviera e tanto Salvio como Talisca parecem estar em trânsito com destino a outras paragens. Ainda assim, Rui Vitória tem um leque de opções vasto que proporciona praticamente duas soluções válidas para cada posição. Antes do último encontro amigável com o Lyon, em França, o conjunto “encarnado” já tinha a “casa arrumada” no que a entradas diz respeito, socorrendo-se dos préstimos do brasileiro Danilo para concorrer com André Horta pelo lugar de Renato Sanches. A possibilidade de Rafa Silva chegar à Luz continua na ordem do dia, movimentação que, a confirmar-se, surgirá apenas depois da Supertaça.

Quem quer ser “8”?

Rui Vitória é o principal responsável no processo de emancipação de Renato Sanches, quando encontrou no jovem português um atleta com as caraterísticas ideias para ritmar o jogo do meio-campo “encarnado”. Ainda que com algumas oscilações de rendimento ao longo da temporada, Renato Sanches foi inequivocamente uma aposta ganha e a sua capacidade de impulsionar a equipa para a frente e o poder de combate no meio-campo vão fazer falta ao Benfica. André Horta deixou apontamentos interessantes na pré-época, movimentando-se muito (mas nem sempre bem) e procurando proporcionar verticalidade ao jogo do Benfica. Não é uma solução tão “musculada” quanto Renato Sanches e não apresenta o mesmo poderio nas divididas, mas tem um perfil interessante, adaptável a vários jogos do campeonato português se tiver o devido “guarda costas”. A chegada de Danilo Barbosa, jogador que já passou pelo SC Braga, proporciona outro estilo para a posição “8”. Na “cidade dos Arcebispos” jogou sobretudo no meio-campo defensivo, mas o ano que passou em Valência fez com que o seu futebol ganhasse outra dimensão. Não é um “agitador” como Renato Sanches, mas a passada larga dá-lhe capacidade de queimar linhas em progressão e também incute capacidade física no meio-campo do Benfica, bem como uma feição defensiva importante sobretudo se Grimaldo e Nélson Semedo forem os laterais escolhidos. A situação poderá obrigar Jonas a pegar no jogo a partir de trás, situação que no entanto não seria inédita no plano do Benfica.

Saída de Nico Gaitán

O excesso de soluções para as alas levará o Benfica a abdicar de algumas unidades até ao encerramento do mercado, com Salvio, Mehdi Carcela e Junior Benítez à cabela na lista de potenciais saídas. Gonçalo Guedes não entra nestas contas e parece talhado para jogar numa posição mais central, na “sombra” de Jonas, mas o número de jogadores para os flancos continua a ser suficiente para encarar a nova época. A saída de Nico Gaitán significa perder a criatividade de um dos melhores dianteiros que passaram pelo futebol nacional nos últimos anos. Rui Vitória tem insistido em André Carrillo pelo flanco esquerdo, internacional peruano que se tem ressentido nos 10 meses sem jogar e ainda procura a melhor forma. Cervi é outra solução para a esquerda numa versão mais próxima de Gaitán, a julgar por aquilo que se tem visto até à data, partilhando caraterísticas com o compatriota argentino. Resta saber quem assumirá a asa esquerda, no apoio a uma dupla letal composta por Mitroglou e Jonas, dois atletas cuja permanência assume grande preponderância para a formação orientada por Rui Vitória.

Boas apostas!