Entre a descida que colocou a cidade de Buenos Aires a ferro e fogo e a conquista de uma taça continental que despoletou a euforia da multidão tingida de branco e vermelho, passaram-se apenas três anos.

O mítico River Plate desceu à Primeira B, pela primeira vez na sua história, em 2011, resultado de uma gravíssima crise a nível interno sem precedentes. A fervorosa hinchada, bem ao estilo sul-americano, de imediato entrou numa inquietação que se estendeu a toda a cidade e resultou em graves confrontos com as autoridades. Mal o encontro terminou no Monumental, o caos instalou-se, numa noite em que a capital argentina não dormiu pelas piores razões.

Caía um grande nome do futebol sul-americano, batia no fundo. Longe de condizer com os pergaminhos que notabilizaram o clube que tantos ilustres representaram…

Enquanto no bairro de Boca se celebrava a queda da gallina, o Monumental era completamente devastado pela fúria dos adeptos. As lágrimas de raiva escorriam na cara de novos e velhos, frustrados pela queda do seu mais-que-tudo. Era muito pior que o término de uma relação amorosa. Estávamos perante um dos mais dolorosos momentos da história do clube que aquelas gentes cresceram a amar. A própria casa não resistia à ira a poucos meses da Copa América, com a decisão precisamente agendada para aquele estádio.

Atlético Nacional 1 - 1 River Plate

Na primeira mão da final da Taça Sudamericana, o River Plate foi empatar a 1 golo à Colômbia, com o Atlético Nacional

Na altura, o presidente era Daniel Passarella. Quando assumiu a presidência, estava ciente das imensas dificuldades financeiras que o clube vivia. Principal alvo da contestação dos adeptos na hora da descida, a sua família foi também vítima da situação e recebeu várias ameaças de morte. Manteve-se no cargo, e o mandato chegou ao fim em dezembro do último ano. Aí, falou abertamente sobre a descida do River, e afirmou que essa época: “Só colocou a própria equipa na Primera B, porque o clube já estava mergulhado numa situação de segunda há anos”. Deixou a garantia de que a nova direção encontraria um plantel com “todos os salários em dia”, e reiterou: “Sempre dei a minha vida pelo River”.

Relegados para a segunda linha do futebol argentino, os atletas responderam ao cântico tantas vezes entoado nas bancadas do Monumental: “E aos jogadores, só pedimos que dêem a vida por estas cores”. Assim foi. Fizeram do branco atravessado pela célebre faixa vermelha a própria pele, e não quiseram, de modo algum, ficar condenados à pouca dignidade da segunda divisão para um clube com os pergaminhos do River. Impunha-se devolver o gigante de Buenos Aires, o mais depressa possível, aos principais palcos, e para isso foram recrutados homens à altura do desafio. Matías Almeyda pendurou as chuteiras e a sua fibra foi transposta para o banco. O homem que beijou o emblema do River em plena Bombonera na direção da bancada, e se esquivou da escolta policial para fazê-lo, assumiu o comando. Regressaram Fernando Cavenaghi e Chori Domínguez para a luta, sendo que Leo Ponzio e Trezeguet se juntaram a eles na segunda metade da temporada.

73 pontos foram o resultado de 20 vitórias, 13 empates e cinco derrotas. O River Plate regressou ao principal escalão.

O Gigante Acordou

Após o regresso do River a uma realidade que nunca deveria ter abandonado (inevitável cliché), o ressurgimento revestiu-se de um cariz gradual. Quando Ramón Diaz pegou na equipa, pela terceira vez na sua carreira, os adeptos sentiram que havia uma forte aposta na recuperação da identidade vitoriosa. El Pelado nunca escondeu que a meta traçada era essa e, após o triunfo no Clausura de 2014, abandonou o clube: “O meu objetivo está cumprido”.

O River Plate estava novamente lançado na rota dos triunfos, e a descida parecia um passado distante. Próximo passo? Voltar aos títulos continentais 17 anos depois, o que constituiria a cereja no topo do bolo.

El Muñeco Gallardo assumiu o comando do clube, agora presidido por D’Onoffrio, e criou um grupo unido, solidário, com grande sentido de compromisso. Um conjunto dinâmico dentro das quatro linhas, acutilante ofensivamente e agressivo. A conquista da Copa Sudamericana – o equivalente à nossa Liga Europa – constitui, tal como narrou Costa Febre, “O acordar do gigante”.

River Plate 2 - 0 Atlético Nacional

Na segunda mão da final, o River Plate ganhou, em Buenos Aires, 2 a 0 ao Atlético Nacional, e ganhou a Taça Sudamericana. O gigante despertara

A destemida formação de Núñez foi caminhando com firmeza, provando que o sonho era mais que uma mera ilusão. As lesões dos jovens Balanta e Kranevitter constituíram mais uma entrave no percurso, soberanamente contornada. Caiu o Libertad, e depois o Estudiantes. Chegou o desafio com o rival Boca nas meias-finais, e o River saiu vencedor de dois confrontos intensos, tanto a nível físico como psicológico. Um golo de Teo Gutiérrez derrotou os xeneize no Monumental, e abriu caminho para a final.

A volta olímpica estava cada vez mais próxima mas, antes disso, impunha-se anular o Atlético Nacional da Colômbia.

Fora de portas, apesar de uma má primeira parte, o River conseguiu sair com um empate a uma bola. No Monumental, a entrada das equipas em campo revestiu-se por si só de uma espetacularidade ímpar, um estímulo incomparável. Aí, o River fez um dos melhores jogos da era Gallardo. Qualidade e muita dinâmica no último terço, Teo Gutiérrez e Rodrigo Mora em grande forma. Armani foi anulando as investidas do ataque riverplatense, mas o ímpeto argentino surtiria efeito.

Do pé esquerdo de Pisculichi saíram duas bolas que valeram a conquista do ceptro. “Com conta, peso e medida”. Mercado e Pezzella cabecearam com violência para o fundo da rede, replicando a fúria e ânsia de vencer que o River Plate carregava.

A volta olímpica concretizou-se. O gigante acordou.

As ruas que circundam o Obelisco de Buenos Aires voltaram a ser palco da apoteose da massa adepta de um dos mais míticos clubes sul-americanos. Glória continental.

Boas Apostas!