“Red Bull dá-te asas”.

O slogan comercial utilizado para promover a bebida energética austríaca fica inevitavelmente no ouvido. Sucinto, fácil de memorizar, e com uma mensagem bem percetível dada a génese da bebida.

É igualmente consensual que a Red Bull é das marcas que melhor se promove à escala global, com grande influência a nível dos desportos motorizados e organização dos respetivos eventos, associada ao salto de Felix Baumgartner da estratosfera e… ao Futebol.

Red Bull Salzburg. Red Bull Leipzig. New York Red Bulls. Red Bull Brasil FC. Red Bull Ghana. No que ao desporto rei diz respeito, a Red Bull marca presença em três continentes e cinco países. Se por um lado desempenha um papel importante na ação que promove no continente africano e na dinâmica que a sua influência acarretou para o futebol da MLS (ex-New York MetroStars), o reverso da medalha surge nos dois clubes que possui na Europa. Talvez o ex-SSV Markranstadt não tenha sentido tanto a mudança, até pela recente refundação que sofreu antes da entrada em cena da Red Bull (1990), embora haja evidentemente um rompimento com a identidade de raiz do clube que hoje atua na Bundesliga 2.

O caso mais bicudo, como se diz na gíria, está sediado na Áustria, país de origem da multinacional.

Futebol Moderno

Futebol moderno. Esse bicho que ultimamente tem consumido o desporto das massas, do povo, que gera paixões verdadeiramente genuínas.

Imagine que é adepto de um clube com 72 anos de história. Um percurso com três títulos de campeão nacional e uma final da Taça UEFA, isto durante a década de 90. De repente, aparece uma entidade endinheirada, e propõe um rompimento total com a história, prometendo elevar o patamar competitivo do clube. Mudança de nome, cores, e até símbolo. A aposta forte no sucesso futuro valerá o rompimento com todo um passado? A questão é mais que pertinente, e caberá ao leitor decidir, depois de nas últimas linhas se ter colocado no papel de adepto do Sporteverein Austria Salzburg. Para uma fação de adeptos do Austria Salzburg, a escolha foi, declaradamente, a rejeição. Procuraram preservar a essência do seu clube, embora isso tenha custado a refundação do mesmo e a descida ao ponto mais baixo do futebol austríaco. A Red Bull não se coibiu de investir no clube, alterou-lhe todo o ADN, e aproveitou apenas o patamar competitivo no qual a anterior formação estava inserida. Objetivo? O olimpo do futebol: a presença na Liga dos Campeões, embora a UEFA procure esconder a promoção à Red Bull contando, para efeitos de divulgação em sorteios/órgãos de CS, o nome Salzburg.

Red Bull Salzburgo

O Red Bull Salzburgo comprou o Austria Salzburgo e transformou-o noutra coisa. O futebol moderno perde a paixão?

Nos últimos anos, o Austria Salzburg galgou quatro divisões. Por seu turno, o novo Red Bull Salzburg somou títulos a nível nacional e alcançou recentemente o play-off da Liga dos Campeões, falhando o acesso aos pés dos suecos do Malmö FF. No entanto, embora tenha conseguido alguma militância a nível interno, a formação continua a ser olhada de lado, como um produto do dinheiro e não do trabalho. A reputação é fraca, é símbolo do futebol moderno. O jornal sueco Aftonbladet foi, inclusivamente, demasiado longe na crítica ao clube austríaco, algo que foi reconhecido posteriormente pelo diretor daquele periódico: “A Áustria não nos deu a conhecer apenas Josef Fritzel e Adolf Hitler. Também nos deu a conhecer o Red Bull Salzburg, o clube mais odiado do futebol contemporâneo”.

Deixando de lado esta questão, fica a nota de que o Red Bull Salzburg é, nesta altura, um verdadeiro viveiro de talentos. Embora Sadio Mané tenha sido recrutado recentemente pelo Southampton, permanecem na Áustria talentos à espera de abraçar um projeto em campeonatos mais competitivos como Jonathan Soriano, Kevin Kampl, Alan, Hinteregger ou Berisha.

RB Leipzig

Na Alemanha, o caso muda ligeiramente de figura, até porque a Federação Alemã impôs medidas para prevenir um avanço radical deste tipo de situações. O clube não pode ter o nome da marca – O RB vem de RasenBallSport – nem deixar que a mesma possua a maior quota das ações. A transformação foi operada no seio de um clube que viu a sua identidade ser alterada por várias vezes devido à separação da Alemanha, acabando como SSV Markranstadt em 1990.

Em Leipzig, atitudes divergentes. O sucesso do RB aproximou parte da população da equipa que frequentemente acorre à Red Bull Arena, mas obteve repulsão total por parte dos adeptos do Lokomotive Leipzig, clube com maior tradição na cidade. Este sentimento de rejeição para com o clube é mais abrangente, com escala a nível nacional, e teve expressão há cerca de 15 dias, quando o RB Leipzig se deslocou a Berlim. Os adeptos do Union local aproveitaram a deixa para protestarem contra o futebol moderno. Os 20 mil espectadores presentes permaneceram em silêncio durante 15 minutos, e foram distribuídas capas pretas pelas bancadas. Um natural combate à emancipação deste tipo de projetos por parte de um clube tradicional, fundado por operários da indústria da capital alemã e cujo estádio foi remodelado em 2008 através da mão-de-obra… Dos próprios adeptos.

“Futebol precisa de participação, fidelidade, claque, emoções, fair-play financeiro, tradição, transparência, paixão, história, independência” e “A cultura do futebol morreu em Leipzig, o Union está vivo” foram as mensagens transmitidas através de tarjas pintadas pelos adeptos da formação da casa, que bem ilustram algumas características que os novos tempos insistem em tirar ao futebol.

Boas Apostas!