“Si, se puede!”, era o grito que vinha das bancadas em Vallecas. A dois jogos do fim do campeonato, e após o retumbante oitavo lugar da época passada, parece que Paco Jémez voltou a fazer das suas. O Rayo Vallecano deve manter-se na primeira liga espanhola pelo segundo ano consecutivo, escapando ao destino traçado da despromoção. E fá-lo dando aos adeptos o que eles querem, um futebol atrevido, ofensivo e de alto risco. À imagem do seu carismático técnico.

Fiel aos seus princípios

Não se pode agradar a todos e alguns Vallecanos ficaram à beira de um ataque de nervos. Como afirmou Borja Barba, “o Rayo de Paco só é divertido quando te são indiferentes os sopapos que leva”. É preciso algum distanciamento para apreciar devidamente a convicção de jogar olhos nos olhos, seja com quem for, de avançar sem reservas para a baliza adversária. Como o próprio treinador reconhece o que separa a ousadia da temeridade é uma linha muito ténue. Mas a sua não é uma filosofia suicida. Se bem que se mantenha firme na fidelidade aos seus princípios, o objetivo não é morrer por eles. Paco Jémez quer vencer, mas vai fazê-lo nos seus termos. “Não consigo conceber o futebol sem riscos e a experiência ensinou-me que quando estamos numa equipa modesta, a única maneira de conseguir alguma coisa é arriscando.” Ao que acrescenta que um posicionamento cauteloso e defensivo pode ser mais sensato mas não garante o resultado. “Se além de seres pequeno fores também cobarde, vais levar porrada de todos os lados”, é a posição de Jémez. Para o treinador do Rayo Vallecano, o mínimo que se pode fazer é dar tudo em campo, proporcionando à afición o verdadeiro futebol espetáculo, algo por que valha a pena ir aos estádios. Se não for assim, porque raio haveriam os adeptos de gastar dinheiro para os ver jogar, sobretudo em tempos de crise?

Estreia de luxo

Francisco Jémez Martin nasceu em Las Palmas, há quarenta e quatro anos mas cresceu em Córdoba, onde os pais se fixaram. Foi internacional por Espanha, no centro da defesa, e fez carreira nos relvado pelo Rayo Vallecano, Deportivo de Coruña e Real Zaragoza. Em Junho de 2012 assinou pelo clube de Vallecas, depois de ter conduzido o Córdoba ao sexto lugar da Liga Adelante. Foi o cumprir de um sonho, seis anos após ter iniciado o percurso como treinador, Paco chegava a treinar um clube da primeira divisão espanhola. E a primeira temporada dificilmente podia ter sido um sucesso mais retumbante. Um oitavo lugar, com cinquenta e três pontos. Foi o melhor registo de sempre dos Franjirrojos, os adeptos andavam nas nuvens e enchiam as bancadas. Cada jogo do Rayo era um acontecimento. Chegado o verão cumpriu-se uma tradição em Vallecas, no fundo uma obrigação para equipas desta dimensão. Saem os jogadores que se destacaram na época anterior, quantos mais melhor, há que aproveitar o interesse fresco do mercado e fazer dinheiro. A versão 1.0 do Rayo de Paco Jémez contava com Javi Fuego, Leo Batistão, Jordi Amat, o capitão Piti, e já tinha absorvido os princípios de jogo do líder. E de repente, foi preciso refazer quase tudo.

As horas mais negras e a reviravolta

Vallecas

O Estádio com um ambiente sempre fervoroso

Agora, que o Rayo ocupa o nono lugar da tabela e que os quarenta e três pontos a duas partidas do fim praticamente selam a manutenção, é fácil louvar a coragem e determinação. Em Abril, Paco venceu o galardão BBVA para o Melhor Treinador do Mês. Mas, como ele mesmo referiu nessa altura, “há dois meses davam-nos pancada, agora recebemos prémios. A minha parte nisto é pequena. Sinto-me orgulhoso é pelos jogadores, que nem nos maus momentos duvidaram.” E foram muitos. Plantel e equipa técnica mantiveram o rumo traçado. Mesmo quando perderam catorze dos primeiros vinte jogos do campeonato e a baliza Franjirroja parecia uma peneira. Mesmo quando levaram “la manita” do Atlético, Málaga e Villareal, quatro do Espanyol, Sevilla e Barcelona e por aí adiante. Nem sequer fraquejaram nas onze semanas em que se mantiveram no antepenúltimo lugar da classificação. Mesmo durante essa fase negra, o Rayo Vallecano era o dono da bola, nem o Barcelona tinha mais tempo de posse, e a ordem era sempre a mesma: atacar! Era um processo e havia de dar o retorno desejado.

Finalmente, em Março, o Rayo começou a colher os frutos. Venceram quatro dos seis desafios, só não pontuaram no Bernabéu, diante da equipa da casa. Uma lufada de ar fresco, alguma claridade. Pela primeira vez na temporada, os Vallecanos estavam acima da linha de água. Os adeptos gritavam “Sim, podemos!” e “próxima época: Liverpool-Rayo”! Já não era só a manutenção, havia aspirações europeias no ar. E Paco Jémez a por água na fervura. Ainda não estavam safos, mas era um começo. Os bons resultados trouxeram confiança, os erros diminuíram e os golos deixaram de entrar à parva. O Rayo tinha sofrido quarenta e cinco golos na primeira volta do campeonato, número quase reduzido a metade na segunda parte da competição.

Há quem adore a montanha russa e quem morra de pavor. Como qualquer aposta de risco, o Rayo de Paco Jémez tem defensores apaixonados e críticos ferozes. Podemos discutir a filosofia, a teimosia e as decisões mas uma coisa ninguém pode negar. O Rayo Vallecano tem o orçamento mais reduzido de todas as equipas da Liga Espanhola. Seguindo a lógica de investimento, deviam estar no fundo da tabela, mesmo em posição de descida. Sem ovos não se fazem omeletes. E, de vez em quando, lá vem alguém lembrar que é possível fazer mais por menos. Possível é, mas não é para qualquer um. É preciso engenho, saber muito bem o que se quer e a capacidade para convencer outros a seguir-nos por esse caminho.

Boas Apostas!