Diz o povo que “não devemos regressar a um local onde já fomos felizes”. A sabedoria popular tem, no entanto, muito que se lhe diga. Há vários exemplos práticos que contrariam a máxima descrita, e o regresso de Paulo Fonseca a Paços de Ferreira constitui, para já, um deles.

Uma época em Paços de Ferreira foi o suficiente para convencer Pinto da Costa a apostar nos seus serviços. A escolha não sofreu, naturalmente, muitas considerações negativas. Afinal, embora a sua ascensão se revestisse de um cariz meteórico, Paulo Fonseca era o homem que tinha operado um feito anteriormente apenas concretizado pelos adeptos dos simuladores virtuais: levar o Futebol Clube Paços de Ferreira à Liga dos Campeões, acabando no pódio da Liga Portuguesa. A troca do boné na flash interview por um posto, que fora considerado anteriormente como cadeira de sonho, seduziu Paulo Fonseca que assumiu o comando do dragão.

Paços de Ferreira versão 2012/13. Uma equipa que sabia respeitar, mas não se retraía perante qualquer adversário. Sabia ser calculista, mas não o era por definição. Praticava bom futebol, não se limitava a jogar para o pontinho fora de portas, e denotava qualidade em todos os sectores. Além da solidez a nível coletivo, as performances individuais de cada elemento indiciavam que estávamos perante a melhor fase da carreira de quase todos os jogadores. Com uns no seu pico e outros ainda no início dos respetivos percursos, note-se a importância desta combinação entre juventude e experiência. No comando, um timoneiro em estreia no escalão principal com mérito pela organização e qualidade em todas as fases de jogo exibida pela sua formação: de seu nome, Paulo Fonseca.

A temporada correu, como se sabe, de feição ao Paços. Terceiro lugar no campeonato, e meias-finais da Taça de Portugal. Histórico. Os castores nortenhos só não conseguiram somar qualquer resultado positivo frente às duas equipas que terminaram o campeonato à sua frente: FC Porto e SL Benfica. Um sonho tornado realidade, inimaginável até para os mais altruístas no início da temporada. Chegados ao fim da temporada, havia apenas uma certeza: a de que o Paços de Ferreira estaria presente no play-off da Liga dos Campeões. Mas afinal, que Paços?

2013/14: Do Sonho ao Pesadelo

Paulo Fonseca no FC Porto

Paulo Fonseca nunca conseguiu impor-se no FC Porto e acabou por viver lá um ano de pesadelo

Juntos viveram a deslumbrante época 2012/13, e o futuro ditaria que, embora separados, Paços de Ferreira e Paulo Fonseca sofressem na temporada seguinte.

Ao tremendo sucesso, seguiu-se a temida debandada geral, com a saída de vários elementos preponderantes no ano anterior. Carlos Barbosa fez nova aposta de risco, e o ministro Costinha assumiu o comando. Era o início de uma temporada que colocaria o seu próprio lugar em cheque.

Por sua vez, Paulo Fonseca tornou-se técnico da equipa campeã nacional. Levou Josué para a Invicta, mas certamente não lhe foi dada a possibilidade de investir em todos os reforços que pretendia, até mesmo tendo em conta o passado recente do clube no mercado. Quando as coisas não correm da melhor forma, é conhecida a mão pesada do tribunal que são as bancadas do Dragão, bem como a elevada cobrança interna. Desapoiado, sem mão no balneário, acabou por bater com a porta. Quando deixou o Porto, em Paços já Costinha e Henrique Calisto tinham abandonado o cargo de treinador, e era Jorge Costa quem teria a hercúlea missão de manter o Paços na primeira divisão. Depois de em 2008 não ter descido em função da relegação do Boavista na justiça, desta vez foi a reintegração dos axadrezados que deu alento à turma amarela: restava jogar o play-off diante do Desportivo das Aves para assegurar a manutenção. Paulo Fonseca assistiu de fora ao confronto entre dois clubes que orientou, e no final da época, regressou ao Paços.

Regresso ao Boné

Trocar o boné pela cadeira de sonho não seria difícil para qualquer treinador. Por outro lado, trocar uma cadeira de sonho – que num sentido metafórico se tornou quase que uma cadeira elétrica – pelo velho boné, é algo digno até pela humildade que acarreta. Descer de um pedestal elevado implica humildade, e Paulo Fonseca teve esse discernimento e ao mesmo tempo a ousadia de contrariar a sabedoria popular ao ponto de regressar onde foi feliz, arriscando manchar a imagem anteriormente deixada. A vida de um treinador é feita disso mesmo: risco.

Levantou-se a questão: seria Paulo Fonseca um treinador de classe média como tantos outros exemplos que temos na Primeira Liga? Seria injusto determinar já que sim, e arriscado responder que não. Tudo aconteceu demasiado depressa na carreira do jovem treinador, e não saberemos se terá outra oportunidade para orientar um projecto de grande dimensão. E por falar em dimensão: o arranque de temporada deste Paços de Ferreira tem sido, isso sim, de uma dimensão admirável.

2014/15

Paulo Fonseca no Paços de Ferreira

De regresso ao Paços de Ferreira, Paulo Fonseca parece ter reencontrado a alegria e as vitórias

O regresso de Paulo Fonseca foi encarado com otimismo pelos adeptos. O ambiente em redor do grupo é positivo: há confiança no trabalho do técnico português e, evidentemente, isso tem impacto no quotidiano da equipa.

Com nove jornadas decorridas, e embora seja ainda uma fase muito prematura da temporada, o Paços de Ferreira, longe do mediatismo de há duas temporadas, está em lugar de acesso às competições europeias. Embora não tenha merecido ainda muitas transmissões televisivas dos seus jogos, assim de mansinho, na próxima jornada, visita Alvalade com mais um ponto que o Sporting de Marco Silva. O plantel não apresenta a mesma relação quantidade/qualidade comparativamente ao de 2012/13. Mas tem, isso sim, capacidade para realizar uma temporada tranquila, longe de sobressaltos de maior. E claro, a ambição de um treinador que pretende provar que o sucesso anterior não foi um golpe isolado de mestria.

Boas Apostas!