Já não acontecia, para o campeonato, há muitos anos.

Finalmente, em 2014, o SL Benfica de Jorge Jesus foi ao Dragão ganhar ao FC Porto, por 2 a 0, o mesmo resultado da época 2005/06, com golos de Nuno Gomes, e da época de 1990/91, com golos de César Brito. Ontem os golos também foram um bis avançado: Lima.

Mas que não se julgue que o SL Benfica foi passear ao Porto, que não foi esse o caso.

O FC Porto foi a equipa que controlou o jogo, que teve maior posse de bola, que mais vezes se aproximou com perigo da baliza adversária, que mais vezes rematou à baliza, que mandou duas bolas ao ferro. O SL Benfica foi a equipa que controlou… o controlador. O SL Benfica foi uma equipa muito eficaz, deixou jogar o adversário, mas longe da sua baliza, aproveitando, e bem, o contra-ataque e usufruindo de uma grande eficácia: três remates na direcção da baliza, e dois golos. Melhor (quase) impossível.

O SL Benfica foi ao Dragão como equipa adulta, sem embandeirar em arco, não querendo fazer bonitinho, nem querer arcar com as despesas do jogo, nem muito menos esquecer que, o FC Porto é uma grande equipa, candidata ao título e a jogar em casa. O SL Benfica projectou um jogo para vender e para aguentar essa vitória. Teve, também, a sorte do seu lado. Samaris apareceu finalmente e, junto com Enzo Peréz, foi uma muralha a impedir veleidades portistas.

Jorge Jesus criou uma teia vencedora. Retraída, mas vencedora.

Julen Lopetegui, que, ao contrário do habitual, apresentou uma equipa sem grandes alterações em relação ao último jogo, acabou por sofrer golos num jogo em que dominou, mas não foi eficiente nem eficaz. E só se pode queixar de si próprio. Afinal, neste FC Porto tão cheio de estrelas, quase só dá… Ricardo Quaresma.

Uma Águia Menos que Faz Mais

O que ficou deste jogo, para além do resultado que o irá ilustrar para o futuro, foi a economia benfiquista. Com muito pouco, o SL Benfica fez um enorme resultado. Não foi uma grande equipa no ataque (embora fosse eficaz e marcasse 2 golos), mas foi uma enorme equipa na defesa (embora tivesse sofrido duas bolas nos ferros).

O FC Porto entrou bem melhor e mais forte em jogo. O SL Benfica mais retraído. Parecia que a equipa do Porto entrara decidida a resolver rapidamente a questão e, por momentos, assim foi. Logo de início, Danilo rematou, forte, a rasar a trave da baliza de Júlio César. Pouco tempo depois, foi a vez de Herrera que, frontal à baliza, rasa o poste direito benfiquista.

FC Porto 0 - 2 SL Benfica 2014

Um jogo muito jogado a meio-campo, onde o FC Porto foi mais dominador, mas o SL Benfica foi mais eficaz

Só à passagem do primeiro quarto-de-hora, é que o SL Benfica ensaia o seu primeiro remate à baliza de Fabiano, através de Nico Gaitán, mas a bola sai bastante ao lado.

À meia-hora, foi a vez de Jackson Martinez rematar forte para uma grande defesa de Júlio César.

Parecia que a história se estava a repetir. Em casa, manda o FC Porto e o SL Benfica sabe muito pouco como é ganhar no Dragão.

Mas, estranhamente, ou não, a equipa encarnada não dava ares de estar nervosa, antes pelo contrário, parecia que o FC Porto estava a fazer o que estava a fazer porque o adversário assim o permitia. E o que parecia, foi. Porque lançado ao ataque, tornando-se displicente na sua retaguarda, o FC Porto não se salvaguardou dos contra-ataques da águia e, à passagem do minuto 36′, Maxi Pereira faz um lançamento lateral daqueles que costuma fazer, para o interior da área adversária, e Lima dirigiu-se à bola, sem oposição de Danilo, e só teve de a empurrar para dentro da baliza.

O SL Benfica inaugurava assim o marcador, e um balde de água fria tombava sobre o Dragão, gelando jogadores, treinador e massa associativa. E, de repente, o que se ouvia nas bancadas era SLB SLB.

Mas era ainda cedo, e a equipa do Dragão levou este golo na boa, desportivamente (não há muito anos, a equipa do FC Porto iria comer a relva do estádio até conseguir anular a diferença!). Ainda havia bastante tempo para inverter as coisas. O FC Porto até estava a dominar o jogo. Pois, mas depois do golo, pouco ou nada fez, realmente, para inverter o estado das coisas. Até ao intervalo, o SL Benfica conseguiu manter-se em alta, procurando o segundo golo, e anulando qualquer veleidades portistas.

Depois, no reatamento do jogo, ainda a equipa da casa não tinha posto em prática toda a teoria arquitectada para dar a volta ao marcador, já o SL Benfica ampliava a vantagem, com Lima a bisar no encontro, e a fazer o segundo golo. Talisca remata, não muito forte, para uma defesa incompleta de Fabiano, que não segura, e Lima, de novo, solto, só teve de encostar, outra vez, para o fundo da baliza do guarda-redes portista.

E a equipa de Lisboa aproveitou esse ascendente e lançou-se à procura do terceiro golo no Dragão. Julen Lopetegui sentiu, então, a necessidade de lançar a jogo Ricardo Quaresma que, como toda a gente sabe, rende muito mais quando entra com o jogo em andamento, especialmente se entrar furioso, como foi ontem o caso (ao primeiro golo do SL Benfica, Quaresma, frustrado, chutou o ferro do banco se suplentes). E a verdade é que, mais uma vez, Ricardo Quaresma veio mexer com o jogo. Parou com o ímpeto atacante do SL Benfica, e centrou várias bolas para a finalização de Jackson Martinez que, ontem, esteve desafinado, conseguindo, no entanto, duas bolas nos ferros da baliza à guarda de Júlio César.

Até ao final do encontro o SL Benfica manteve sempre o jogo controlado. O seu meio-campo foi sempre de uma sobriedade a toda a prova. Samaris fez, provavelmente, o seu melhor jogo desde que chegou a Portugal. Enzo Peréz foi o pulmão do meio-campo e Nico Gaitán voltou a ser o senhor do jogo, só perdendo para Lima porque marcou os 2 golos. Sálvio esteve longe do que consegue fazer, mas não comprometeu. E mesmo quando Luisão, lesionado, teve de abandonar as quatro linhas e ser substituído por César, não houve medo nem tremedeira, nem se alterou a táctica desenhada por Jorge Jesus.

Mas do lado do FC Porto também houve coisas boas, em especial o meio-campo por onde andava Casemiro e Óliver Torres, os mais esclarecidos dos jogadores do FC Porto, numa noite em que Herrera primeiro, e Quintero depois, estiveram fora do jogo. Como aliás todo o ataque, em especial Tello, que cavou um cartão amarelo a André Almeida logo aos 2′ de jogo, mas que depois pouco mais fez, e Brahimi, uma sombra do que já foi. Restou ainda a defesa de Martins Indi e Alex Sandro. Mas não foram suficientes.

Cavar o Futuro

Se bem que, com esta vitória, o SL Benfica tenha alargado para 6 pontos a vantagem sobre o FC Porto, nada está perdido, nem nada está ganho, para nenhuma destas equipas. Mas o FC Porto tem de fazer muito mais do que fez ontem e, agora, bem mais que o SL Benfica que só tem de saber gerir a sua vantagem.

FC Porto 0 - 2 SL Benfica 2014

E quando toda a gente esperava por Jonas no ataque encarnado, Jorge Jesus fez entrar Lima e ganhou a aposta

O FC Porto ainda está na Liga dos Campeões, mercê de uma fase de grupos impoluta, mas também algo enganadoramente fácil. Agora tem pela frente o FC Basel de Paulo Sousa que, não sendo uma equipa de primeiro plano, vai exigir alguma atenção ao dragão, afinal, foi a equipa que deixou para trás o Liverpool. E entre a Liga dos Campeões e a Primeira Liga, algo poderá ficar para trás.

Quanto ao SL Benfica, já arredado da Europa, cedo demais, ainda está na Taça de Portugal, competição da qual o FC Porto foi eliminado, o que vai fazer o SL Benfica jogar, agora, a meio da semana contra o SC Braga. Jogo difícil a anteceder o Gil Vicente na Luz, no próximo fim-de-semana.

Até ao fim do campeonato, muita tinta irá ainda correr mas, para já, Jorge Jesus conseguiu ganhar mais consistência para uma equipa para a qual já tinha recuperado mais alguns jogadores na última partida da Liga dos Campeões contra o Bayer Leverkusen. Ontem também ganhou Lima, que vinha a fazer um campeonato pobre e longe dos golos e, em vez de utilizar Jonas, como mandaria o bom-senso, optou, em boa-hora, por Lima e recuperou um avançado que tardava em se reencontrar.

Quanto a Lopetegui, está a mostrar algumas dificuldades em criar uma equipa, depois de ter andado tanto tempo com os jogadores num verdadeiro carrossel. Lopetegui mostrava ter jogadores e não uma equipa. E agora percebe-se as suas dificuldades em montar uma equipa. Grandes jogadores, mas alguns deles já a desaparecer. Ainda vai a tempo, no entanto, de arrepiar caminho.

Para já tem de viver com esta angústia de ter visto a águia a voar, laconicamente, sobre o Dragão. Sem ter feito muito, só o suficiente, para chegar, ver e vencer.

Boas Apostas!