De vez em quando, um deles sobe, ou desce, à cidade do outro.

Sporting CP e FC Porto têm uma história. Também se poderia juntar o SL Benfica a esta equação, mas a verdade é que, de momento, não é para aqui chamado.

Portanto, estamos com uma história dividida entre sportinguistas e portistas. Ora ganha um, ora ganha o outro. Ultimamente, ganha mais um que o outro. Porque um deles está mesmo no topo do Mundo. O outro limita-se a ir andando, ao deus dará, sobrevivente, à espera de melhores dias que, seguramente, hão-de vir.

Mas de momento, um deles tende a construir uma história de heróis. Mesmo que com pés de barro, não interessa. É uma história de vencedores. O outro segue uma história que é mesmo história, valorizando o passado, enquanto o futuro não ilumina o presente.

De todas as formas, tudo se faz, se constrói, para que se altere a história.

E, ultimamente, e para que a história se altere, juntou-se, à equação, Bruno de Carvalho, o presidente do Sporting CP.

Uma Bandeira do Norte

Desde que Jorge Nuno Pinto da Costa pegou no clube que o FC Porto se transformou numa equipa vencedora. Mas continua a ser uma equipa regional, mesmo que alcance o sucesso na Europa, e no Mundo, mesmo que grande vencedor, o FC Porto não ultrapassou o estigma regional. Nunca conseguiu ser um clube nacional, muito por culpa própria porque, em momentos de afirmação, soltaram os cães do bairro e proclamaram o nós conta eles. Gritaram, para quem os quis ouvir, que para sul do Douro só Mouros. Por isso, não se admirem. Não estranhem a pequenês do clube, por maior que seja o seu palmarés.

FCPorto

Historicamente, o FC Porto leva vantagem no jogo em casa

Mas para o que interessa, o FC Porto é o grande campeão português, alicerçado nos últimos, bastantes, anos.

Se não há engano nas contas, o FC Porto venceu 27 Campeonatos Nacionais, 20 Taças de Portugal (16 Taças + 4 Campeonatos de Portugal), 20 Supertaças Cândido de Oliveira, 2 Ligas dos Campeões, 2 Ligas Europa, 1 Supertaça Europeia e 2 Taças Intercontinentais. É obra. E o grosso da coisa aconteceu depois de 1982, o ano em que Jorge Nuno Pinto da Costa se tornou presidente do FC Porto, tornando-o, assim, o dirigente desportivo com mais títulos em todo o Mundo.

Principalmente em casa, o FC Porto é uma equipa muito difícil. Para não dizer intransponível. Tem de se recuar a 2007, para se encontrar uma vitória do Sporting CP no reduto portista. Foi num jogo da Primeira Liga e o FC Porto perdeu por 1 a 0.

Outras derrotas houve, mas foram em finais da Supertaça Cândido de Oliveira e Taça de Portugal, em campos que não o Dragão.

Este vender cara a derrota tornou-se uma faceta da equipa portista e uma bandeira do norte do país, em especial contra os clubes do sul, principalmente, os da capital. Concretamente, Sporting CP e SL Benfica.

O que o engrandece, também o diminui. Ao querer ser a cara e o representante de uma região, o FC Porto assumiu que nunca poderia ser um clube nacional.

Para o bem e para o mal, o FC Porto é um clube do Porto. Das margens do Douro. A ver ali chegar a Foz.

Um Clube Aristocrata

O Sporting CP, nasceu da cisão de um outro clube de Lisboa que estava mais vocacionado para outros eventos que os futebolísticos. Alguns membros dessa agremiação, chefiados por José de Alvalade, lançaram-se na criação de um clube que tinha a ambição de ser um dos maiores do Mundo contando, para isso, com o dinheiro de Alfredo Augusto das Neves Holtreman, Visconde de Alvalade, avô de José e dono de uma série de terrenos, tendo cedido alguns para a criação do campo de futebol.

SportingCP

O Sporting CP anda apostado em inverter as lógicas

Quer se queira, quer não, o Sporting CP nasceu como um clube de meninos ricos, aristocratas, cheios de vontade e esperança.

E o Sporting CP tornou-se um dos grandes clubes de Portugal, ombreando, uma série de anos, com o SL Benfica pelo domínio do país, mas tendo caído, um pouco, quando o FC Porto começou a ganhar, e a ganhar terreno. Mas ao contrário do FC Porto, e um pouco como o SL Benfica, o Sporting CP, embora venha ali do Campo Grande e de Alvalade, dois bairros lisboetas, tornou-se um clube nacional, ainda hoje espalhado por todo o país e resto do Mundo.

O que é peculiar neste clube é que, ao fim de tantos anos sem ganhar quase nada, o clube ainda conta com uma massa associativa bastante interessante, pela quantidade e pela acérrima defesa das cores do clube.

Com um palmarés, em grande parte conquistado até aos anos ’80 do século passado, o Sporting CP é detentor de 18 Campeonatos Nacionais, 19 Taças de Portugal (15 Taças + 4 Campeonatos de Portugal), 7 Supertaças Cândido de Oliveira e 1 Taça das Taças.

Com a passagem de um período muito complicado iniciado nos anos ’80, e do qual a ainda hoje não se livrou, o Sporting CP tenta, a todo o custo, recuperar o prestígio perdido. Não tem sido fácil mas, a espaços, lá vai conseguindo marcar a sua presença. Este jogo no Dragão, em jogo a eliminar, aparece como uma possibilidade de fazer brilhar a equipa de Marco Silva. Novos treinadores e novos jogadores num clássico sempre em constante renovação.

Um Presidente em Bicos dos Pés

E no meio do tumulto sportinguista que se arrasta já há vários anos, surge um presidente que diz não ter medo e que quer lutar contra o poder estabelecido. Aliás, o Sporting CP tem longa história de luta contra o status quo, com um presidente, Dias da Cunha, que inaugurou a luta contra o Sistema, que seria um esquema montado para favorecer alguém (nomeadamente, o FC Porto).

Bruno de Carvalho

Bruno de Carvalho, um presidente que gosta de lançar achas para a fogueira

Bruno de Carvalho é sobrinho-neto de José Pinheiro de Azevedo, antigo Primeiro Ministro e antigo candidato à Presidência da República, apelidado de Almirante sem Medo, epíteto que serviu de inspiração para a biografia de Bruno de Carvalho, escrita por Bruno Roseiro e intitulada O Presidente sem Medo.

Bruno de Carvalho é uma personagem que nunca se cala. Tem opinião sobre tudo. Por vezes parece que nunca tem dúvidas e raramente se engana. Mas a verdade é que Bruno de Carvalho, por vezes, parece querer ser um Pinto da Costa em pequenino.

Nesta semana que antecede o clássico do Dragão, Bruno de Carvalho já veio afirmar numa entrevista que o ambiente no estádio do FC Porto é tão hostil que só falta sair de lá morto. Há uns anos, o FC Porto gritava que só queria ver Lisboa a arder. Bruno de Carvalho parece andar a ler a cartilha do mestre, mas não tem a mesma capacidade de empolgamento do povo, nem a sua agudeza irónica. Pinto da Costa é um génio a esgrimir a sua ironia. Mesmo os seus adversários não conseguem esconder um sorriso à malícia irónica do presidente do portista. Bruno de Carvalho é, simplesmente, boçal.

Por outro lado, é de louvar o que Bruno de Carvalho está a conseguir com uma equipa que andava de rastos. Parece ter conseguido controlar os gastos, limitar os custos e, mesmo assim, construir uma equipa que não tem dado má conta do recado, antes pelo contrário.

Se não há muito tempo, este jogo no Estádio do Dragão anteciparia uma muito provável vitória do FC Porto, hoje, é tudo menos certa, essa vitória. O Sporting CP estará lá para conseguir vender cara a derrota.

E quem vai ganhar, no fundo, somos nós, os espectadores.

Boas Apostas!