El Loco Bielsa nasceu em Rosário, na Argentina, há 59 anos atrás. É uma das personagens mais peculiares da atualidade futebolística, tanto pela componente laboral, como pela respetiva personalidade.

Depois do sublime trabalho à frente do Athletic Club Bilbao, impõe-se fazer acordar o histórico Marselha. Desde que chegou ao sul de França, entre ligar para a Argentina de madrugada para falar com um fã que lhe endereçou uma carta, queimar-se com um café colocado por cima da geleira em que se senta durante os jogos, ou celebrar sozinho uma vitória da sua equipa no McDonald’s, a forte personalidade de Marcelo Bielsa constitui uma preciosa arma na luta frente ao endinheirado PSG.

Estas são apenas histórias pontuais da carreira de um treinador que deambula entre a genialidade e a loucura – termos tão intimamente ligados – e mal chegou a Marselha teve a ousadia de criticar publicamente o presidente, acusando-o de não reforçar devidamente a equipa. Bielsa é assim: genuíno.

Ligue 1

A hegemonia do Olympique Lyon terminou na temporada 2008/09, quando o Bordéus venceu a Ligue 1 e colocou um ponto final ao domínio de Les Gones, que haviam festejado em sete ocasiões consecutivas. Ao Bordéus sucederam Marselha, Lille e Montpellier, com o milionário PSG a conquistar as duas últimas edições da prova. Para evitar que se instaure nova hegemonia em terras gaulesas, os responsáveis do clube que viveu um verdadeiro pesadelo na década de 90, devido a casos de corrupção, apostaram em Marcelo Bielsa. Urge relançar uma formação que tem nova e imponente casa, com capacidade para 67 mil espectadores.

Objetivo mínimo: acesso à Liga dos Campeões.

O Ofensivo Marselha de Bielsa

Marcelo Bielsa no Marselha

Marcelo Bielsa está apostado em quebrar a hegemonia do PSG com o seu OM

Marcelo Bielsa é sinónimo de futebol ofensivo. O técnico argentino é obcecado pelo processo ofensivo e, em Marselha como em Bilbao, tem imposto o seu estilo. Intensidade, pressão alta, boa noção em termos de ocupação dos espaços, atacar com muitos, velocidade no último terço, explorar em transição, e profundidade. Assim se caracteriza, em traços gerais, o Marselha versão 2014/15.

Escalonado habitualmente num 4-2-3-1, apresentemos o onze-base da formação francesa: Mandanda na baliza, eixo composto por N’Koulou e Morel, Mendy e Djedé pela lateral, duplo pivot defensivo composto por Romao e Imbula, Payet mais à frente numa posição central, Ayew e Thauvin pelas alas, e Gignac na frente de ataque.

Nascido no Congo e internacional pela principal seleção francesa desde 2008, Steve Mandanda é o guardião principal. À sua frente, no centro do quarteto defensivo, o camaronês N’Koulou e o francês Morel constituem uma dupla rápida em deslocação, que exibe qualidade a sair com bola. Pelas laterais, dois atletas que se integram bem na manobra ofensiva, nomeadamente Mendy e Djedjé.

Na primeira fase de construção, é comum ver os centrais optarem por jogar para uma das laterais, com Mendy e Djedjé bem abertos, dando-se a aproximação de um dos extremos e do médio Payet. Verticalidade, futebol direto que às vezes passa pela bola longa à procura de colocar de imediato em Gignac.

À frente da defesa, o duplo-pivot Romao-Imbula. O togolês Alaixys Romao desempenha função de um médio mais fixo, essencialmente defensivo, coadjuvado por Gianelli Imbula, um médio mais área a área. Exercendo grande influência no último terço, o médio ofensivo Dimitri Payet é uma das figuras do conjunto marselhês. Pelo meio ou descaído sobre as alas, Payet é um jogador tecnicamente bom, sempre próximo da área contrária gozando de certa liberdade.

No ataque moram os elementos mais mediáticos deste Marselha. Florian Thauvin é, por esta altura, a coqueluche da equipa e apontado como um dos jogadores franceses mais promissores da sua geração. Dinâmico, bom tecnicamente, e com facilidade em utilizar ambos os pés. Atua essencialmente pela direita mas também pode jogar pelo meio. Pela banda contrária, é o ganês André Ayew quem se impõe. Jogador de grande disponibilidade física que além daquilo que oferece à equipa ofensivamente, é muitas vezes um elemento valoroso em transição defensiva. À cabeça deste trio, André-Pierre Gignac, jogador que está numa super-forma e por isso nos merecerá destaque individual.

Chegados à frente, Bielsa procura que os seus jogadores sejam objetivos, e com isto não quer dizer que procurem imediatamente alvejar a baliza contrária. Quer dizer, isso sim, que pretende que haja movimentações constantes, preocupação em executar com rapidez e explorar os espaços vazios sempre que possível.

Gignac, o Matador Marselhês

Andre-Pierre Gignac no Marselha

Andre-Pierre Gignac ganhou segunda vida no OM

A carreira de Gignac é feita de altos e baixos. Assim foi no Lorient, clube pelo qual se estreou enquanto profissional, e o estigma ficou para o resto da carreira. Em Toulouse, assumiu-se como melhor marcador da prova, e no ano seguinte, embora tenha somado algumas prestações positivas, não conseguiu manter o nível num conjunto que também decaiu bastante em termos de rendimento. Integrou a comitiva da seleção francesa de Domenech que esteve no Mundial 2010, na África do Sul, competição que todos os franceses e o próprio jogador devem preferir esquecer.

Sem abandonar território nacional, Gignac atracaria em Marselha, e está na quarta época ao serviço do principal emblema da cidade. Tem sido a grande figura deste arranque de temporada, revelando-se uma verdadeira referência de ataque. Leva 10 golos em 11 jogos. Números que falam por si só.

Ambições

Na altura em que escrevo estas linhas, o Marselha lidera a Ligue 1. Porém, estamos ainda numa fase muito precoce da temporada. Rendamo-nos a uma evidência: a equipa às ordens de Bielsa tem vindo a praticar um futebol agradável com resultado em termos práticos. Sabemos também que não tem a pressão das competições europeias e, portanto, um calendário mais leve. Com a qualificação para a Champions como objetivo, conseguirão Marselha e Bielsa transcender-se, superar o super PSG, e erguer o título da Ligue 1?

Boas Apostas!