Gyula Grosics integrou a seleção húngara que surpreendeu a europa na primeira metade da década de 50. Participou em três mundiais, foi vice-campeão do Mundo, e conquistou o ouro olímpico nos Jogos de Helsínquia, em 1952. Motivos que por si só lhe garantiriam um merecido lugar no hall of fame.

Mas Grosics marca por outras razões. Além da agilidade que aliava a um bom porte físico e lhe conferia qualidade entre os postes, destacava-se igualmente pela destreza fora deles. Abordava bem os lances, e aventurava-se a sair da sua área de conforto se assim achasse proveitoso. Saía dos postes e recorria ao jogo de pés para limpar jogadas de perigo contrárias. Era, portanto, um guarda-redes dotado de capacidades invulgares para a época e é considerado quase que um protótipo primitivo do atual guarda-redes líbero.

O louco Higuita, colombiano que teve a ousadia de fazer uma defesa imortalizada como escorpião em pleno Wembley. Em 1990, no Mundial, a sua excentricidade custou a eliminação à Colômbia. Posicionado entre os centrais após o lançamento de uma bola longa da defesa contrária, apertado por Milla, tentou a finta e perdeu a posse, permitindo ao camaronês fazer o 2-1. Na época de Higuita, as leis do jogo já propiciavam este tipo de situações. As equipas começavam a ser entendidas como um conjunto de onze jogadores, e não meramente 10 atletas de campo mais um guarda-redes. O homem que defendia as redes começava, de forma ténue, a ganhar mais que uma modesta vida entre os ferros.

O brasileiro Roger Ceni é outro bom exemplo. A qualidade no batimento de bolas paradas tornaram-no um verdadeiro fenómeno, um ícone na posição. A apetência para o golo num guarda-redes sugere um antagonismo. Certo é que já todos lemos guarda-redes de excelência, em entrevista, confessarem que nos primeiros anos de formação foram modestos avançados. O que aprenderam não foi, no entanto, em vão, e o tempo encarregou-se de lhes demonstrar isso mesmo.

A Evolução

A evolução faz parte do jogo.

Victor Valdés no FC Barcelona

Victor Valdés não era o melhor guarda-redes do Mundo, mas merecia a confiança de Pep Guardiola

Os regulamentos começaram a permitir que os guarda-redes ganhem novas dinâmicas. A posição de líbero caiu em desuso. O recrutamento de guarda-redes é cada vez mais criterioso, avaliando todas as virtudes do intérprete. O jogo com os pés tem ganho importância significativa.

Falar na introdução do conceito de guarda-redes líbero é indissociável do Barcelona de Pep Guardiola.

Victor Valdés não era, definitivamente, o melhor guarda-redes do Mundo enquanto defendia as redes de uma equipa que marcou uma era, verdadeiramente estratosférica. Mas Guardiola manteve sempre uma confiança inabalável nas suas capacidades. Porquê? Não é difícil entender que o catalão exercia uma importante influência no esquema.

Qualidade no passe e no posicionamento definem Victor Valdés, que se assumia como um líbero dos blaugrana. Além da confiança que transmitia à equipa, permitia jogar com a defesa subida. Afirmava-se como mais uma solução para dar continuidade ao jogo – essencial no Barça, tanto à frente como atrás – e, com um raio de ação maior, de prevenção. Exercia também influência a nível da própria estrutura da defesa, nomeadamente da saída com bola criando superioridade numérica naquele espaço do campo. Permitia temporizar, deixar que os colegas tivessem uma correta perceção do que se segue para colocar a bola com critério. Os colegas movimentavam-se no sentido de dar soluções, algo perfeitamente rotinado no tiki-taka do Barça. A exploração dos espaços e o posicionamento infalível fizeram do Barcelona de Guardiola uma verdadeira máquina do futebol, eficaz a toda a linha. E, claro, não desprezar a capacidade na bola longa, com os característicos passes teleguiados: jogo direto, queimando linhas.

Manuel Neuer

Manuel Neuer no Bayern Munique

Manuel Neuer é, provavelmente, o melhor guarda-redes do Mundo, e está às ordens de Pep Guardiola

Manuel Neuer é um aluno exemplar.

Tem recebido de Guardiola ensinamentos que aprimoram o seu, já por si só, sublime jogo de pés, e confessou há tempos que observa vídeos de guarda-redes de andebol para absorver aspetos que possam melhorar o seu jogo.

As convictas e eficazes saídas da baliza maravilharam os adeptos durante o último Campeonato do Mundo. A inteligência e o elevado grau de concentração marcam a postura do guarda-redes alemão na baliza. A precisão no passe, a qualidade no contacto com a bola, o critério na hora de jogar e até o bom jogo de cabeça colocam Neuer no topo. É , por isso, expoente máximo do conceito de guarda-redes líbero.

Boas Apostas!