E se, de repente, a Olivedesportos deixasse de ter dinheiro para sustentar os clubes da Primeira Liga?

Esta é uma pergunta pertinente porque, por um lado, a grande parte dos clubes vive dos direitos de exploração televisiva pagos à distância de uma série de anos. Por outro lado, com o chumbo do negócio da PT e da Nos com a Olivedesportos, o grupo de Joaquim Oliveira está a passar por um período complicado, a que se juntam também os problemas financeiros nos vários orgãos de comunicação social que detém, e não se sabe, exactamente, como vai terminar.

Tudo terá sido despertado por um alerta de Mário Figueiredo, o presidente da Liga de Clubes que está debaixo de fogo por causa das eleições na Liga, alegadamente realizadas sob várias irregularidades, tendo sido obrigada a novo escrutínio, acção que Mário Figueiredo conseguiu parar, por enquanto, ao interpor uma providência cautelar. Não deixou, no entanto, Mário Figueiredo, de alertar os governantes, sobre a real situação da Olivedesportos e, por associação, os vários clubes dos dois campeonatos profissionais de futebol.

Assim, está aberta uma guerra entre o Presidente da Liga de Clubes (não se sabe se interino, a prazo ou efectivo) e o, outrora, todo poderoso Joaquim Oliveira, dono da Olivedesportos e Controlinveste.

Segundo uma investigação da revista Visão, Mário Figueiredo terá feito uma exposição ao governo, onde terá alertado para os problemas financeiros das empresas de Joaquim Oliveira que poderão vir a por em causa uma grande parte dos clubes da Primeira e Segunda Liga, bem como a realização dos Campeonatos Nacionais profissionais de futebol.

É sabido que, muito clubes só têm existência pelos dinheiros que lhes entra nos cofres pela mão da Olivedesportos e dos direitos televisivos. Alguns destes clubes não chegam a ter 1000 espectadores nas bancadas para ver os jogos. A União Desportiva de Leiria, que agora milita no Campeonato Nacional de Seniores, foi um claro exemplo disto, havendo um claro divórcio entre a cidade e o clube, que levava sempre um número residual de espectadores aos jogos, na verdade, quase os mesmos que acompanham o clube hoje, e que vivia da exploração televisiva e, no caso concreto da União de Leiria, dos bons negócios que foi tendo com a venda de jogadores. É preciso lembrar, por exemplo, que, José Mourinho, quando saiu da União de Leiria para o FC Porto, levou Derlei, Nuno Valente e Tiago. Mais tarde seria Helton. A União de Leiria sempre fez bons negócios. Mas não tinha espectadores. Nem muitos sócios pagantes.

Mário Figueiredo

Mário Figueiredo iniciou uma guerra com Joaquim Oliveira, que não se sabe como vai acabar

Ao saber-se dos alegados problemas financeiros nas empresas de Joaquim Oliveira, é de pensar seriamente nos clubes que se sustentam com as explorações televisivas, num campeonato, como o português, sobre-dimensionado. Ainda este ano o campeonato foi alargado para 18 clubes, para contemplar a entrada do Boavista. Mas se o dinheiro das transmissões televisivas acabarem, onde é que os clubes irão buscar dinheiro? Como poderão pagar salários? Manter os clubes? Suportar o campeonato?

Como se poderá realizar um campeonato nacional, se só 4 ou 5 clubes é que conseguem gerar receitas próprias suficientes para a sua própria sobrevivência? E que, desses, só 3 é que têm, realmente, uma estrutura real sustentada?

É sabido como a saída do SL Benfica da esfera da Olivedesportos, ao criar o seu próprio canal, a Benfica TV, e a arcar com a exibição dos jogos próprios realizados em casa, deu uma valente cacetada financeira na empresa de Joaquim Oliveira. E outros clubes poderão seguir-se, assim se libertem das amarras contratuais.

Quando se candidatou pela primeira vez à presidência da Liga, um dos pontos do programa de Mário Figueiredo era a descentralização dos direitos de exibição que se encontravam todos nas mãos da empresa de Joaquim Oliveira. Hoje, só o SL Benfica e Sporting Farense têm direitos sobre os seus próprios jogos. E estamos a falar de um negócio que move cerca de 200 milhões de euros por ano. Mas é preciso alimentar muitas bocas.

Nos últimos tempos a Controlinveste, empresa de Joaquim Oliveira que controla a TSF, o DN, o Jornal de Notícias, O Jogo, a SportTv e a Olivesdesportos, entrou em reestruturação com o despedimento de inúmeros jornalistas de vários dos projectos de comunicação do grupo. A situação económica do país acabou por ter repercussões na situação económica do grupo que mesmo numa situação de quase monopólio (a Olivedesportos tem a transmissão dos jogos da primeira e segunda ligas, com excepção dos jogos do SL Benfica e Farense, o que lhe valeu uma multa de 2,7 milhões de euros pelo Tribunal da Concorrência), não vive, afinal, uma situação de desafogo, para o qual também tem contribuído os prejuízos da SportTv, único no seu género em regime Premium, ou seja, a pagar.

Mas ainda agora a história começou. Entre Joaquim Oliveira, a Olivedesportos, a Sport Tv e Mário Figueiredo, ainda muita tinta vai correr. E com, ou sem dinheiro, a história estará para durar.

Pode estar a assistir-se ao fim de um ciclo. Mas o que é que lhe poderá suceder? E a Primeira Liga? Como é que irá sobreviver?

Boas Apostas!