Menos de dez meses depois de o ter contratado, os poderes do United decidiram “libertar” David Moyes e indicar Ryan Giggs para o lugar, interinamente. As opiniões dividem-se. Para uns a decisão chega tarde, a prestação do novo técnico foi uma morte há muito anunciada. Para outros, esta não é a filosofia do United, e que assinar contratos de seis anos para os quebrar em menos de uma época mostra desorientação.

Presente envenenado

Até ao fim David Moyes continuou a dizer que Sir Alex Ferguson lhe tinha feito um convite lisonjeiro que ele teve o orgulho e humildade de aceitar. Fica-lhe bem dizê-lo, mas não foi. Suceder ao velho escocês, uma lenda viva em Old Trafford, seria sempre uma armadilha fatal. E tudo o que podia correr mal correu.

Não é por acaso que Ferguson tem um “Sir” antes do nome. Ao longo de vinte e seis anos no comando transformou o Manchester United num dos maiores clubes do mundo e tornou-se no mais respeitado e condecorado Manager do futebol do planeta. Ocupar o seu lugar no banco do Man U não seria para qualquer um e, como normalmente acontece nestas histórias de sucessão, o primeiro é para queimar. Moyes é basicamente culpado de dar um passo maior que as pernas, mas poucos teriam a sabedoria para resistir a uma tentação destas.

Erro de casting

moyes ferguson

Afinal não eram parecidos…

Só havia duas pessoas à altura do papel, com um palmarés ao nível a que Ferguson tinha elevado o United. Aparentemente, Pep Guardiola foi sondado mas já estava comprometido com o Bayern e José Mourinho não agradava aos históricos de Old Trafford, que não o consideram suficientemente cavalheiro. Primeiro erro. Optou-se então por uma solução de recurso. Procurou-se uma cópia do velho treinador, não da figura real mas de uma certa idealização que se fez em torno dele. Porque entre Moyes e o Ferguson de há vinte anos há muito pouco em comum, talvez mesmo só o facto de serem ambos escoceses e terem uma carreira no futebol. Tudo o resto sai ao lado. Ferguson não era o cavalheiro, bom comportado e simpático. Foi um verdadeiro “bully”, autoritário e provocador. Teve decisões desastrosas e momentos maus, embora já poucos tenham memória disso. Porque o que ficou foram os sucessos, e foram muitos. Era desse “espalha-brasas” que o Manchester e Sir Alex precisavam para o suceder.

Pesadelo recorrente

David Moyes herdou uma equipa, para todos os efeitos, campeã. É certo que nos últimos dois anos o grupo estava preso por fios e que Ferguson foi incapaz de encontrar soluções para renovar o plantel, como a chamada de Paul Scholes o demonstrou. Mas o escocês assumiu o comando do United como se ainda estivesse a gerir o Everton. Sem grandes ambições, sem rasgo, com imensas cautelas e seguindo um modelo de futebol direto, e básico, que já tinha obtido bons resultados. No Everton. Nunca mudou o chip, continuou a ser o treinador de uma equipa de meio da tabela, e foi isso que conseguiu. E o mais chocante foi assistir, ao longo de meses, ao ar perplexo de Moyes na linha lateral, virado para os adjuntos, sem saber o que fazer. Sem ideias. Sem soluções. Ele próprio o admitiu, em entrevista, no balanço de uma das quinze derrotas da temporada. Quando um líder diz “sinceramente não sei o que mais poderíamos ter feito para vencer” não está lá a fazer nada e deve tirar daí as consequências.
Em anos anteriores, o United entrava em campo com uma vantagem psicológica. A ideia de jogar contra eles, sobretudo nas idas a Old Traford, era o bastante para mexer com a cabeça dos adversários. Os Red Devils deixaram de ser uma equipa intimidante para se transformarem num grupo banal, que não assusta ninguém.

Curiosamente, a Liga dos Campeões foi a única competição em que o United não fraquejou. Pode-se até dizer que a forma como resistiram ao poderoso Bayern de Munique foi um feito quase heroico, dadas as circunstâncias. Tudo o resto foi desastroso: o sétimo lugar na Liga, a vinte e três pontos do líder; a eliminação das talas; derrotas duplas nos confrontos diretos com o City, Liverpool e Everton; ser batido pelo Swansea, West Ham, Stoke e Newcastle, pela primeira vez em décadas. Mas o pior de tudo, é o futebol jogado. Pobre e desinspirado. Fossem quais fossem as limitações do plantel, e houve algumas durante o longo reinado de Sir Alex, os jogadores mostraram sempre uma garra, um querer, que colmatava qualquer falha. Moyes nunca foi capaz de agarrar o balneário de Old Trafford, nem de tirar dos homens ao seu dispor o que de melhor tinham para dar.

O senhor que se segue

Quem vier a seguir tem o trabalho facilitado. A comparação já não será com o legado quase impossível de igualar de Ferguson, é a espiral desastrosa vivida com David Moyes. E fazer pior é altamente improvável. Ryan Giggs pega na equipa, provavelmente para os cinco jogos que faltam esta época, e tenta reavivar o espírito do Manchester United. À espera do senhor que se segue, os rapazes de Fergie ficam responsáveis pela casa.

Boas Apostas!