Reclama para si os mais intensos focos dos holofotes da Luz e, quando a bola está em sua posse, de imediato se esboça uma expectante reação vinda das bancadas.

Nico Gaitán, o camisola 10 encarnado, gosta de deixar plateias em êxtase e ser centro das atenções. Quanto maior o palco e o desafio, mais elevada a fasquia na intensa tentativa de impor a sua fantasia. Quando dribla habilidosamente um oponente, coloca a bola com régua e esquadro na cabeça do avançado, ou flete para o centro e atira ao recanto da baliza em que pernoita a coruja, é Nico em todo o seu esplendor. O Topo Sul curva-se perante os rasgos de genialidade do zurdo argentino.

Aterrou na Portela rotulado de valoroso atleta, com imenso potencial para explorar e exponenciar. Chegou ao campeão português por um valor a rondar os nove milhões de euros, e foi apresentado ao lado de outro argentino: Franco Jara.

O futuro, esse, reservava melhor sorte a Gaitán de águia ao peito. Os primeiros minutos revelaram desde logo o inato talento de Gaitán, bem como a vontade de Jara. O que um dos intérpretes evidenciava, ao outro faltava. O toque de bola de Nico não enganava. Respondia por jovem prodígio, mas precisava ser um jogador com mais garra, necessitava que o sangue lhe fervesse mais e cravasse com superior intensidade a chuteira sobre o tapete verde. A elegância, essa, era digna de passadeira vermelha. Necessitava despir o fato de gala e descalçar o par de sapatos condizente. O desapego ao jogo e a falta de compromisso deixavam o adepto relutante. A genialidade de Nico parecia enclausurada, com breves e pontuais lampejos de fuga ao padrão vigente.

“A paciência é amarga, mas o seu fruto é doce”

As palavras do filósofo Jean Jacques Rousseau aplicam-se no caso de Gaitán.

Nico Gaitán no SL Benfica

Nico Gaitán é dos melhores representantes da mística benfiquista, adorado pelos adeptos do antigo terceiro anel

De JJ para JJ, o técnico benfiquista parece ter interiorizado a premissa anterior, embora não esconda a preferência por Pascal. Certo é que, a aplicação prática da citação enunciada, conheceu o seu doce fruto. Mais maduro, por sinal. Sob atenção de Jesus, Nico cresceu. O tempo e a aprendizagem conferiram-lhe legitimidade para usar o mítico 10, bem como capitanear a formação da Luz. Percebeu finalmente a importância do coletivo. Os devaneios e as excessivas tentativas inférteis de se recriar com a bola são coisa do passado. A displicência sem bola, as fragilidades na tomada de decisão e a parca interpretação do jogo também. Despertou para o intrínseco valor de um desempenho mais cerebral, que o conduziu à subida de patamar de rendimento. Os índices de produtividade dispararam.

A noção das consequências das suas ações e o impacto prático das mesmas no jogo, tornaram Gaitán muito mais jogador.

Ao passo que as principais figuras do plantel às ordens de Jorge Jesus rumam a outras paragens, a preponderância de Nico Gaitán é reforçada. A responsabilidade acresce, e responde com qualidade. A par de Brahimi é, provavelmente, o jogador tecnicamente mais capacitado na atual realidade do campeonato português.

Pelo centro ou pelo flanco, difícil é aferir em que terrenos é que o futebol de Nico Gaitán ganha maior dimensão. Pegando na batuta da orquestra ou assumindo-se a solo pela ala, fá-lo sempre com um estilo muito peculiar. Para Jesus, apesar da constante procura do jogo interior que cria desequilíbrios e oferece notável qualidade em transição, é na asa esquerda que deve desfilar.

Gaitán é um criativo, um portento técnico, arguto na movimentação e na abordagem aos lances. A classe caracteriza-o. Em “futebolês”, Gabriel Alves diria que pinta lances dignos de Picasso. O terceiro anel reitera, e deseja que continue, após cada golo, a erguer e rodopiar o braço como que a gabar-se de fazer um exigente palco exultar com os seus momentos de genialidade.

Boas Apostas!