Semana de elevado potencial irónico para uma Liga dos Campeões que parecia rumar, em maré bem calma, para a normalidade de termos os supostos mais fortes na fase mais adiantada da prova. O primeiro sinal foi dado em Madrid, quando o Schalke 04 quase surpreendeu o Real, mas a grande notícia da semana é a eliminação do Chelsea que coloca Mourinho fora dos quartos-de-final da competição e o faz experimentar algo raro, a perda de uma eliminatória depois de ter conquistado vantagem na primeira mão.

O jogo que o Chelsea nunca esteve a ganhar

David Luiz PSG

David Luiz condenou a sua antiga equipa

Os 210 minutos de futebol desta eliminatória deixaram claro que, muitas vezes, o que nos diz um resultado não espelha, de forma fiel, aquilo que se passa no relvado. O Chelsea esteve em vantagem no marcado durante a primeira parte, em Paris, tendo mantido essa mesma vantagem ao assegurar o empate na Cidade Luz. Depois, em casa, também se encontrou a ganhar por duas vezes, mas se o resultado apontava para um Chelsea ganhador, a realidade do jogo era um formigueiro de dúvidas sobre o que se passaria na mente da equipa do Chelsea.

José Mourinho já o disse mais do que uma vez e todos os analistas estarão de acordo que, com a chegada de Fàbregas, o Chelsea desta temporada tem outras possibilidades de jogo e apresenta um futebol mais fluído, com mais passe, aproveitando ainda as qualidades de um trio no meio-campo ofensivo – Willian, Óscar, Hazard – que é capaz de criar a partir do nada. No entanto, a derrota do Chelsea começou no exato momento em que Mourinho renunciou a essa capacidade para defrontar o PSG. Se fora da casa poderemos perceber a frieza que a equipa adotou, em casa, perante dez elementos, o Chelsea nunca se resolveu.

Os adeptos exigiam da equipa o mesmo futebol ofensivo e vistoso que marcou a primeira metade da temporada em Stamford Bridge, enquanto do banco Mourinho estava alerta para os problemas que o Paris SG era capaz de criar aos Blues, sempre pressionando no sítio e momento certo. O plantel do Chelsea não conseguiu assim passar um teste de grau de dificuldade maior do que o previsto e assistirá ao resto da Liga dos Campeões em casa. Algo que poderá muito bem vir a acontecer com as restantes equipas inglesas, tornando os quartos-de-final território proibido para os britânicos.

Os assobios a Ancelotti, a ovação a Lopetegui

Paralelos entre a noite Champions de Madrid e do Porto são poucos. No banco estão técnicos com uma história nesta temporada radicalmente diferente. Carlo Ancelotti entrou como vencedor da Liga dos Campeões e elevou o futebol do Real Madrid a uma máquina de retraçar tudo o que lhe apareceu pela frente até ao Mundial de Clubes. Julen Lopetegui foi rodando os seus jogadores, muitas vezes de forma incompreensível para quem assistia, em busca do melhor onze para enfrentar os jogos decisivos da temporada.

Cristiano Ronaldo Schalke

Schalke só não escapou à sombra de Ronaldo

Comparando erros e virtudes, muitas vezes somos levados a entender a sorte como um fator decisivo do futebol. Não é. Poderá haver uma pequena dose de sorte numa bola que, depois de bater na barra, sai para fora da baliza, mas até esses elementos são hoje em dia escalpelizados até ao ínfimo pormenor. A sorte não entra na análise do jogo. A paixão, sim.

Onde Lopetegui surge, hoje, como um apaixonado pelo jogo, constantemente a colocar em causa as suas próprias ideias, Ancelotti parece ter estagnado no conforto de uma fórmula que lhe deu um título europeu, no ano passado, e parecia ser suficiente para fechar contas na presente temporada, pelo menos a nível interno. Nada mais errado. O futebol é um elemento dinâmico, em mutação, e a ideia certa e proveitosa de hoje acaba por ser o elemento frágil de amanhã.

No capítulo das coisas que nunca mudam, no entanto, está Cristiano Ronaldo, que com dois golos em momentos decisivos travou o ímpeto do Schalke 04 e segurou o Real Madrid na Liga dos Campeões. Se o FC Porto promete ser o adversário desejado por todos para os quartos-de-final, por não transportar consigo a carga do “papão”, o Real Madrid é daquelas equipas que, tendo passado a eliminatória, mais dados deixou sobre como pode vir a ser eliminada no encontro seguinte.