A partida da jornada em Inglaterra é um Chelsea-Arsenal. É um jogo decisivo para as aspirações de ambas a equipas ao título e a conhecida falta de afeto entre os dois treinadores só aumenta o frenesim mediático. Não podia havia melhor momento para assinalar o milionésimo – sim, percebeu bem – jogo de Arsène Wenger como Manager do Arsenal.

E vão mil!

Dezoito anos é muito tempo para qualquer relação. Manter-se assim no comando de uma equipa, mesmo com a cultura de futebol que existe em Inglaterra, não é para qualquer um. Sobretudo para um estrangeiro. Em 1996, quando ele chegou a Highbury, a prática desportiva ao mais alto nível era muito mais descontraída. Ele trazia uma abordagem científica, elevando a fasquia do que era ser um jogador de futebol profissional. Os jogadores ingleses – e não só – não estavam habituado, ouve alguma resistência. O anedotário de Wenger está cheio de histórias destas. Amy Lawrence, no programa 5Live da BBC, contou um episódio que ilustra essa estranheza inicial. Na véspera do embate inaugural, com o Blackburn, a equipa instalou-se num hotel e Wenger quis que os jogadores se reunissem no salão para um sessão de alongamentos – exercícios de Yoga e Pilates. Ficaram todos a olhar uns para os outros. Ian Wright, por exemplo, ficou inconsolável quando o Francês fez desaparecer o Ketchup, as gomas e os chocolates. Também não foi pacífico convencer o plantel que ir para os copos às terças e quintas, para jogar ao sábado, não era aceitável. Hoje estas coisas são evidentes, não o eram há quase vinte anos.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se

Ray parlour Arsene Wenger

Ray Parlour nos tempos de jogador

Ray Parlour, em entrevista ao The Independent, confidencia que os jogadores “não sabiam quem Arsène Wenger era” e tiveram as suas reservas. Mas bastaram seis semanas para perceber que a Direção estava certa, ele ia conduzir o Arsenal a um outro nível. “Não tenho dúvidas quando ao impacto que Wenger teve, tanto ao nível individual, com os jogadores, como coletivo, transformando o clube como um todo”. “Fez de mim um jogador tecnicamente muito melhor e aprendi imenso com ele durante aquele período”. Essa é uma das caraterísticas que todos os que trabalharam com ele salientam, Wenger sabe muito sobre futebol, conhece todos os jogadores, por mais jovens que sejam, e adora conversar sobre o assunto. Outra coisa comum aos vários testemunhos é o de estar sempre disponível. Thierry Henry, em conversa com a BBC Radio, diz que “o tipo estava nas instalações desde as oito, oito e meia, e saía às dezassete, dezoito, todos os dias. Isso diz tudo sobre o homem. Era o primeiro a chegar e o último a sair”. Sempre presente, sempre interventivo, os jogadores respeitam isso.

“Especialista em fracassos”

Mas nem tudo foi um mar de rosas. Foram várias as ocasiões ao longo dos anos em que os adeptos se viraram contra ele. O que pesará mais quando um dia se fizer a História deste legado? As inovações, o profissionalismo, a dedicação e o peso que teve no aperfeiçoar de tantos jovens talentos ou estes últimos oito anos sem um troféu? A memória é curta e no fim o que conta são os resultados, no futebol como em tudo. Mourinho chamou-lhe “especialista em fracassos”. Curiosamente, ou não, a renovação do contrato que o liga aos Gunners está em suspenso, a dois meses do termo. Ele disse certa vez que no fim de cada época fazia uma auto-avaliação para perceber se tinha condições de embarcar numa nova temporada. Talvez Arsène Wenger esteja à espera para ver como corre a FA Cup e o resto do campeonato para se voltar a comprometer. Vendo o que se está a passar em Manchester, preparar atempadamente a transição não seria uma ideia a descartar.

Sacudir fantasmas para ganhar de cabeça

Encontro marcada para sábado, às 12.45, em Stamford Bridge. Na luta pelo título só a vitória interessa às duas partes. Chelsea corre na frente assombrado pelo fantasma do City, o Arsenal aguenta-se no grupo da frente mas em sofrimento. Não parece provável que os Gunners consigam o resultado em casa do rival. Os confrontos com as equipas de topo da Liga Inglesa têm sido o calcanhar de Aquiles de Wenger esta época. Ao contrário dos Blues, que tropeçam com as equipas mais fracas mas se superam frente aos grandes.

Boas Apostas!