O caso de Marcos Pinheiro Pizzelli confunde-se com o de tantos outros jogadores nascidos no Brasil.

Cresceram na ilusão de vir a representar o seu povo, mas a forte concorrência e o elevado nível exigido para vestir a camisola da canarinha foram esmorecendo essa ambição e esbatendo o sonho. Fora de portas, encontraram e abraçaram uma segunda pátria que, não sendo de berço, os adotou.

Porém, a história deste médio ofensivo é peculiar por revelar uma grande capacidade de adaptação de um brasileiro que deixou São Paulo para rumar… ao futebol arménio. Num contexto inteiramente díspar, encontrou cores nacionais com as quais se identifica e promete jogar pela seleção da Arménia até que deixem de o considerar útil.

A Arménia, território que pertenceu à extinta União Soviética, não ocupa, definitivamente, as preferências dos futebolistas sul-americanos que partem para a primeira aventura na Europa.

Na encosta do monte Ararate – que encerra sobre si um importante simbolismo bíblico –, disputa-se a Bardsragujn Chumb, principal escalão do futebol do país com pouco mais de três milhões de habitantes. Um terço da população está concentrado na capital Yerevan, cidade que se assume como o principal centro futebolístico do país. Afinal, de entre as oito equipas participantes, seis têm sede em Yerevan e note-se a existência de sete estádios com capacidade superior a mil espectadores. Gyumri, a norte da capital, e Kapan, a sul, são as outras duas cidades que albergam clubes de primeira divisão.

Em 2006, Pizzelli encontrou no leste a solução para dar um passo na carreira, deixando as divisões inferiores do futebol gaúcho e as cores do São Carlos Futebol Clube. É certo e sabido que a importação de talentosos brasileiros para esta zona do globo tem o seu principal foco em Donestsk, através do Shakhtar local, mas Marcos foge à regra e, aos 22 anos, abraçou o projeto do Ararat Yerevan. Volvidos dois anos, tornou-se cidadão arménio e, portanto, opção para um integrar uma formação que surgiu em 1992. Foi o primeiro brasileiro a erguer o escudo arménio ao peito.

Um Brasileiro que se Sente Arménio

“Sinto-me mais arménio que brasileiro. Estou grato ao país por tudo, e jogarei pela seleção até que deixem de me considerar útil”, disse Marcos Pizzelli em entrevista. Também em termos de feições tem muito mais de arménio que de brasileiro. Conhece a história do país, e revela que nutre um grande respeito pelos companheiros de equipa cujas famílias se viram obrigadas a fugir devido às perseguições turcas.

Marcos Pizzelli no Ararat Yerevan

O Ararat Yerevan foi a primeira equipa de Marcos Pizzelli na Arménia

Na época 2008/09, em função da crise financeira que levou o Ararat Yerevan a abdicar dos seus serviços, rumou aos escalões franceses amadores para atuar numa equipa de origem arménia que mantinha relações com o clube: o ASA Issy. Esta situação condicionou a sua vida no que concerne à seleção principal, e só quando regressou à capital da Arménia para reforçar o Pyunik reentrou nas contas pela mão do selecionador Vardan Minasyan. O país que ainda procura a primeira presença em fases finais de uma grande competição registou evolução somando alguns resultados agradáveis, e Pizzelli foi parte integrante deste crescimento.

O seu percurso – com passagens pelos campeonatos arménio, ucraniano, russo e, atualmente, cazaque – não nos permite indagar a que nível poderia ter chegado caso tivesse integrado outro cenário competitivo quando chegou à Europa, com 22 anos. Embora tenha conseguido o seu espaço no Aarat, não evoluiu muito em termos de aprendizagem e não se criaram condições propícias ao desenvolvimento do seu futebol atendendo ao contexto futebolístico. No fundo, provavelmente haveria potencial suficiente para explorar melhor.

Certo é que encontrou um lugar onde se sentiu feliz, foi acolhido de braços abertos pelo povo arménio, e de brasileiro guarda a humildade que se exprime na gratidão demonstrada para com a Arménia. Dentro das quatro linhas, também não costuma assumir um papel exuberante. É um jogador de processos simples, cumpridor, com especial aptidão para o remate de meia distância, algo que lhe possibilitou ser o melhor marcador do campeonato arménio. A sua fase de maior fulgor ao serviço da seleção já lá vai, e embora tenha sido titular no últimos encontros frente à Sérvia e França, a presença no onze titular para o jogo desta noite diante de Portugal não é um dado adquirido. Outra incógnita é o esquema tático a apresentar por Bernard Challandes, que poderá andar entre um 5x3x2, ou um 5x4x1. Caso opte pela primeira opção, é provável que Pizzelli, chamado à conferência de imprensa de antevisão ao jogo, esteja entre as escolhas do treinador.

Aos 30 anos, o ciclo na seleção parece estar perto do fim. Passa o testemunho a jovens que têm entrado na equipa, numa lista encabeçada por Henrikh Mkhitaryan. Se a escolha de Pizzelli foi algo exótica, atendendo à sua proveniência, certo é que há quem lhe tenha seguido as pisadas: Alex Henrique da Silva, defesa oriundo de Ribeirão Preto, São Paulo, e que se estreou pela seleção em maio deste ano. Provavelmente já não terá oportunidade de atuar na fase final de uma grande competição, mas poderá gabar-se de ter sido um dos atletas que, pé ante pé, ajudou a colocar a pátria na rota futebolística.

Boas Apostas!