O Estádio da Luz recebeu, este domingo, uma grande noite do futebol português, com todos os condimentos para se tornar memorável uma partida entre as suas duas melhores equipas, Benfica e Sporting. Para além das bancadas cheias e da competitividade extra que uma possível mudança no topo da classificação poderia significar, vimos também duas organizações de jogo a tentar surpreender-se mutuamente, num dérbi onde entraram, como titulares, onze jogadores portugueses.

O Benfica venceu e esses três pontos mantém-no em vantagem preciosa na corrida pelo título. Mas à parte de todo o fogo de artifício que se tentou vender no rescaldo desta partida, a história do jogo diz-nos muito mais sobre o que podemos esperar das duas equipas. No fundo, os golos surgiram contra a história do encontro e é nessa aparente contradição que reside o sumo da análise do mesmo.

O Sporting não pode errar

Não é de hoje, é de toda a história de treino de Jorge Jesus no futebol português. A sua equipa está melhor organizada e apresenta melhores condições para surpreender o seu adversário. Ontem, fê-lo na primeira fase de construção, conseguindo sair com bola para o ataque organizado, fê-lo nos extremos do ataque, expondo os laterais do Benfica a fragilidades que nem sempre são reveladas, fê-lo na maneira como conseguiu criar oportunidades de golo, transformando Éderson num dos homens da partida.

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Éderson ganhou o duelo a Bas Dost

Ao Sporting faltou maior capacidade de finalização, sendo que Bas Dost é um finalizador que pouco ajuda na criação de desequilíbrios, algo que se sentiu  na partida de ontem. Faltou, também, nos minutos finais, maior consistência com bola, porque ao contrário do que seria de esperar, em desvantagem, o Sporting não se instalou no meio-campo do adversário.

Agora, o Sporting não pode errar. É essa a carga que Jorge Jesus transporta nas suas equipas. A subida no terreno de jogo derivada da superioridade com bola não lhe permite recuperar convenientemente a partir dos seus desequilíbrios na transição e, na primeira vez que o Benfica montou o seu contra-ataque, Salvio apareceu a fazer o 1-0. O segundo golo expôs uma outra fragilidade que já tinha surgido no primeiro tento, ainda que menor no grande quadro da jogada. A incapacidade dos seus laterais acompanharem o movimento para o centro dos seus adversários. Marvin falhou no primeiro, João Pereira no segundo. E Raul Jiménez fez o 2-0 aos 47 minutos do encontro.

O talento individual pode fazer-te campeão

Rui Vitória tentou a sua surpresa ao lançar Rafa no lugar de Franco Cervi. Não tivessem sido as lesões e talvez o jovem internacional português já fosse um titular constante na equipa encarnada. Depois do que demonstrou ontem, não restam muitas dúvidas sobre o seu merecimento. Rafa é um jogador que corresponde, em termos criativos, a qualquer quadro de adversidade, substituindo o que é complexo pelo que aparenta ser uma solução simples. A sua qualidade individual teve muito peso na forma como o Sporting nunca pôde lançar-se totalmente ao ataque, enquanto sentiu ter em Rafa uma ameaça latente ao seu objetivo.

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Rafa foi a melhor surpresa de Rui Vitória

No que toca ao caminho que o jogo levou, o treinador do Benfica encontrou sempre o melhor contexto para impor soluções que tem treinadas. A vantagem conseguida nunca obrigou o Benfica a expor-se em demasia, nem tornou tão relevante a incapacidade em sair organizado a partir de trás. Não se viram os desequilíbrio que a equipa consegue criar a partir da sua intermediária, mas aquilo que o jogo pediu ao Benfica foi maior solidez no meio-campo e maior capacidade para corresponder nas transições rápidas.

Entre dois guarda-redes que costumam ser decisivos, o Benfica também teve em Éderson (com muito mais trabalho do que Rui Patrício) um elemento de segurança. O golo de Bas Dost surge numa das poucas situações em que o holandês surgiu à vontade na área encarnada, sendo que a outra levou a bola a embater no poste, logo no regresso do intervalo, o que poderia ter transformado, por completo, aquilo que se definiu como resultado.

A história do que passou no relvado mostrou um Sporting mais forte, com maior responsabilidade de tornar o futebol atrativo em caminho para chegar à vitória. Mas o Benfica deste último ano é muito aquilo que se viu no Estádio da Luz. Uma equipa de fragilidades mais evidentes, mas muito mais consequente na abordagem da construção do resultado. E, para o bem e para o mal, é isso que faz mais vezes campeões.

Boas Apostas!