Assim, de repente, à queima-roupa, numa resposta automática sem grandes pensamentos sobre a sua veracidade, a única resposta possível é, talvez, não sei.

É que há vários ângulos sobre os quais se pode observar uma resposta.

De imediato, pode pensar-se que as duas melhores equipas de futebol do Mundo são espanholas. Que os dois melhores jogadores do Mundo jogam na Liga Espanhola. Que a própria Selecção Espanhola é a melhor selecção do Mundo. Mas se aproximarmos o olhar, e observarmos com atenção, é mesmo assim? É mesmo assim que as coisas são ou é assim que, afinal, as vemos, que as queremos ver, que nos querem fazer ver? É que se pensarmos bem, e com cuidado, percebemos que foram duas equipas alemãs a chegarem à final da Liga dos Campeões. Que pode ser um dos indicadores. E onde estavam Barcelona e Real Madrid?

Por outro lado, quantas vezes ligamos a televisão para ver um jogo do Barcelona? E do Bayern de Munique? E de uma qualquer equipa da Premier League? Há equipas que apelam, de facto, mais que outras. Há competições mais entusiasmantes, de facto, que outras. Há jogadores que fascinam, de facto, mais que outros. E onde fica a paixão, o gosto pessoal, o gosto criado e os factos?

Mas vamos a alguns factos de La Liga.

A Liga Espanhola

A Liga Espanhola, que ao longo dos tempos sobreviveu com outras denominações, teve a sua origem em 1929.

Actualmente é uma competição jogada por 20 equipas, sendo que, ao longo dos anos, esta quantidade já foi várias vezes alterada.

Já passaram por La Liga, 55 clubes. Destes, entre os vários sobe-e-desce, três clubes nunca baixaram à Segunda Liga: Real Madrid, Barcelona e Athletic Bilbao. E nove foram já as equipas vencedoras da Liga: Real Madrid, Barcelona, Athletic de Bilbao, Atlético de Madrid, Valencia, Real Sociedad, Real Bétis, Sevilla e Deportivo La Corunha.

Nos últimos anos, como em outros períodos da história, a Liga Espanhola tem sido repartida entre as cidades de Madrid e Barcelona, entre o Real Madrid e o Barcelona. Por vezes esta repartição é tripartida, com a chegada à frente do Atlético de Madrid, a terceira equipa a vencer mais vezes La Liga e a única, a par do Real Madrid e do Barcelona que já foi, também, campeã Mundial.

A Liga Espanhola, também chamada esta época de Liga BBVA, por força dos patrocínios, foi considerada, pelo IFFHF, a Federação Internacional de História e Estatística do Futebol, como a melhor Liga de 2013/2014, e a segunda melhor da década, a seguir à Premier League.

Cristiano Ronaldo Lionel Messi02Lionel Messi, que está há 10 anos no Barcelona, tornou-se o melhor marcador de sempre de La Liga, ao marcar o seu 336º golo.

Real Madrid e Barcelona recebem, cada um, actualmente, 140 milhões de euros, de direitos televisivos. 6,5 vezes mais que as outras equipas da Liga Espanhola. Existe, actualmente, também, um projecto de lei para limitar a diferença entre quem mais ganha e quem menos ganha, propondo, esse projecto de lei, que o máximo não seja mais de 4x superior ao mínimo. Esta diferença de valores acontece porque, ao contrário do que se passa na maioria das ligas, em Espanha os clubes negoceiam os direitos de transmissão individualmente e, quanto mais importante o clube, maior o seu poder negocial, e menor o valor disponível para os outros clubes. Com este projecto de lei, contudo, os valores de Barcelona e Real Madrid não vão descer, mas congelar até que os outros clubes consigam chegar ao patamar de valor obrigatório.

De La Liga pode ainda dizer-se que tem os dois melhores jogadores do Mundo: Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. E que teve, até o ano passado, o melhor ponta-de-lança do Mundo, Falcao. Pode ainda dizer-se que tem a melhor segunda linha de jogadores, como Iniesta e Xavi. E tem, afinal, dois dos melhores clubes do Mundo: Real Madrid e Barcelona, que têm os dois melhores jogadores do Mundo. Tudo como se fosse uma pescadinha.

A isto, ainda se pode acrescentar que, das 10 transferências mais caras de sempre, 7 foram protagonizadas por Real Madrid ou Barcelona: Gareth Bale, do Tottenham para o Real Madrid, em 2013, por 100 milhões de euros; Cristiano Ronaldo, do Manchester United para o Real Madrid, em 2009, por mais de 90 milhões de euros; Neymar, do Santos para o Barcelona, em 2013, por mais de 80 milhões de euros; Zinedine Zidade, da Juventus para o Real Madrid, em 2002, por mais de 70 milhões de euros; Zlatan Ibrahimović, do Inter para o Barcelona, em 2009, por mais de 60 milhões de euros; Kaká, do Milan para o Real Madrid, em 2009, por mais de 60 milhões; Luís Figo, do Barcelona para o Real Madrid, em 2000, por 60 milhões de euros. Haja dinheiro.

Não é a melhor Liga do Mundo? Mas parece, não parece?

As Outras Ligas e uma Série de Critérios

Em 2013, a revista norte-americana Wild Soccer tentou quantificar o gosto para descobrir qual era a melhor das ligas de futebol de todo o Mundo e, para isso, elaborou um conjunto de 8 critérios para ajudar a apurar, com factos, qual era, afinal, a melhor das ligas.

Bayern MunichUm dos critérios foi a média de público nos estádios. Ora, já era sabido que, os adeptos alemães eram os que iam mais aos estádios. Por força do hábito, dos seus elevados salários, ou da sua paixão pelo futebol, a verdade é que os estádios das equipas alemãs, e não só das equipas principais, estão sempre bastante bem compostos. 43 000 adeptos em média é o que comportava um jogo de futebol da Bundesliga. A Inglaterra, que aparecia em segundo lugar, tinha uma média de 34 000 e a Espanha, que surgia em terceiro lugar, tinha uma média de 28 000 adeptos por jogo. 15 000 adeptos separavam um jogo de futebol da Bundesliga de La Liga. A isto ainda se podia acrescentar que, dos 11 clubes que mais adeptos levavam aos estádios, 7 eram alemães. Adiantava falar aqui da Liga Portuguesa? Também me parecia que não.

Outro dos critérios adoptados foi a facturação. Aqui, a Premier League era a liga que mais facturava. Qualquer coisa como 2 mil milhões de euros. Bastante distante das ligas seguintes, a Bundesliga e La Liga, com facturações a rondar 1,5 mil milhões de euros. Ou seja, mesmo com estádios cheios, a liga alemã facturava menos que a liga inglesa. Pode pensar-se que isto se deve à globalização. A Premier League é mundial, conhecida em todo o lado e, como o provam os patrocínios e apoios e a publicidade paga, o seu destino é global. A Bundesliga, por maior sucesso que seja, não deixa de ser um sucesso regional. Se calhar, também a língua conta. E o inglês vence o alemão.

Outro critério de ponderação factual foi a média de golos das diferentes ligas. Mas aqui, não haveria muita diferença entre as principais ligas europeias, sendo que La Liga, Bundesliga e a Premier League apresentavam uma média de golos muito próxima.

Depois focaram-se na variedade de campeões nas ligas. Mas aí, a Europa cedeu lugar à América do Sul, onde há mais clubes a lutar pelo primeiro lugar, e mais vezes se muda de campeão. A verdade é que, na Europa, isso é mais difícil. Em Espanha, La Liga tem sido dividida, nos últimos anos, entre Real Madrid e Barcelona. O último intruso nesta hegemonia foi o Valencia na longínqua época de 2003/04. Em Inglaterra, a Premier League tem sido conquistada pelo Manchester United, com algumas vitórias de permeio pelo Chelsea e uma do Manchester City e, já longínqua no tempo, outra pelo Arsenal, em 2003/04. Na Alemanha, na Bundesliga está a liga com maior rotatividade de clubes campeões da Europa. Nos últimos 10 anos ganharam a Bundesliga, o Bayern de Munique, o Borussia de Dortmund, o Wolfsburg, o Stuttgart e o Werder Bremen. Em Itália, na Serie A, os últimos 10 anos tem sido divididos entre a Juventus, o Inter e o Milan, se bem que existe uma certa concentração de vitórias pelo Inter de Milão.

E afinal, o que se tira daqui? Que, de uma forma ou de outra, as diferentes ligas têm o poder dividido, ou concentrado, em 2 ou 3 equipas – afinal, o que também se passa na Liga Portuguesa. O caso da Alemanha é diferente. Mas também se percebe que, mesmo com mais campeões, as grandes equipas, as que se mantêm no topo das classificações, ano-após-ano, acabam por ser sempre as mesmas e os novos vencedores acabam por ser, quase sempre, epifenómenos.

Outro dos critérios foi o número de treinadores campeões a treinar equipas de uma determinada liga. Aqui, numa ordem que colocava em primeiro lugar Inglaterra, depois o Brasil e em terceiro lugar a Alemanha podia pensar-se que quem tem mais dinheiro tem mais campeões. Mas nesse caso, porque não estão os treinadores, também, em Espanha? E o Brasil, porque aparecia aqui? Porque há muitos treinadores brasileiros a ganharem a Taça Libertadores, uma competição menos competitiva que a Liga dos Campeões.

Depois, teve-se em conta o investimento em novas infra-estruturas, como novos estádios. Em primeiro lugar ficaram os Estados Unidos, e em terceiro lugar o Brasil. O segundo lugar foi para a Alemanha. Mas é claro que este critério está muito dependente das grandes competições internacionais, como o Campeonato do Mundo ou o Campeonato da Europa, e pela folha de encargos com que a FIFA e a UEFA torna dependente a criação dos eventos. A Alemanha organizou o Campeonato do Mundo de 2006. O Brasil está a organizar o Campeonato do Mundo de 2014. Os Estados Unidos, bom, os Estados Unidos têm sempre boas condições para poderem promover o que querem promover: foi assim que foram aliciando grandes estrelas em final da carreira. Bons jogadores, excelentes infra-estruturas, grandiosos espectáculos.

Outro dos critérios foi o número de estrelas em campo. Mas as estrelas eram moldadas pelas suas participações em jogos internacionais, nomeadamente, pelas selecções dos seus países. Aí, o primeiro lugar foi para a Inglaterra, cuja Premier League albergava muitos jogadores seleccionados pelas mais diferentes selecções, logo seguido pela Itália e pela Espanha. O que se retira deste critérios é que a Inglaterra é um melting pot. Congrega em si todo o Mundo. Tudo tende a ir desaguar a Inglaterra e à Premier League. É a globalização que se fala, quando se fala da liga inglesa. Para o bem e para o mal. Mas mais para o bem que para o mal.

Por último, os clubes de sucesso. Foi-se avaliar a qualidade de uma liga pela quantidade de clubes que mais longe chega nas competições internacionais, como a Liga dos Campeões ou a Taça Libertadores. Em primeiro lugar apareceu a Espanha. E depois do segundo lugar do Brasil, surgiu a Inglaterra. Torna-se claro, com isto, a importância que têm os clubes espanhóis, em especial os dois principais, o Real Madrid e o Barcelona.

Depois de tudo estudado, analisado e perspectivado, a ordem que saiu desta lista de critérios foi a seguinte: em primeiro lugar a Bundesliga, em segundo a Premier League, em terceiro La Liga e em quarto a Serie A.

Conclusões

E o que há a concluir daqui? Em primeiro lugar o óbvio: segundo os critérios de análise, a Bundesliga da Alemanha é a liga mais importante do Mundo.

Mas isto é o que os factos, compilados segundo estes critérios, nos garantem. Mas os factos são criados por um conjunto de critérios que são apresentados como tendo o mesmo valor e sabemos que não é assim. Há factores bem mais importantes que outros.

Ou seja, não se discute que a Bundesliga seja a melhor das ligas – afinal foram duas equipas alemãs que protagonizaram a final da Liga dos Campeões na época passada.

Mas isso é o suficiente para tornar a liga alemã apetecível? É verdade que as duas equipas finalistas da Liga dos Campeões eram alemãs, e que os estádios alemães são os que têm mais espectadores nos jogos, que a liga alemã é das que mais factura, que é a terceira liga em termos de treinadores campeões e que é a segunda liga com maiores investimentos nas infra-estruturas para acomodar o futebol. É isto o suficiente para tornar popular, fora dos limites germânicos, a liga alemã?

Bayern MunichPor outro lado, a Premier League é a segunda liga com maior número de espectadores por jogo, é a liga que mais factura com os jogos de futebol – que são vistos em qualquer parte do Mundo -, que mais treinadores campeões comporta e que mais estrelas tem nos seus relvados. Pode ser por uma questão de afectos, de proximidade, de língua. Mas, na verdade, a Premier League é muito mais apelativa em qualquer latitude. Talvez por ser mais cosmopolita, mais global, reter em si jogadores de quase todo o mundo, ter um grupo de várias equipas que jogam para ganhar, num futebol aberto, rápido e glamouroso.

Por último, La Liga. É a terceira liga que mais espectadores tem nos seus estádios. É a terceira liga a facturar com o futebol e a terceira com mais estrelas em campo. Mas é, também, e por outro lado, a liga com os clubes de maior sucesso. Real Madrid e Barcelona rivalizam, globalmente, com a totalidade da Premier League. É o suficiente para tornar La Liga a mais importante das ligas de futebol?

Ora, se se repetir a pergunta em título, É a Liga Espanhola a Melhor do Mundo?, a resposta, agora, terá de ser não. A melhor liga do Mundo talvez seja a Premier League. Mas da liga espanhola pode dizer-se, e sem grande margem de erro, que comporta os dois clubes mais importantes do Mundo: Real Madrid e Barcelona. Estes sim, são grandes, globais, máquinas de fazer dinheiro e exibidores de estrelas e campeões. Mesmo que por vezes sejam máquinas trituradoras de sucessos.

Boas Apostas!