Dizer que a relação de José Mourinho com a imprensa nunca foi fácil soa, de facto, a eufemismo.

Sempre que o Special One se acomoda para dar o respetivo testemunho, toda a gente tem expetativa bem definida: frontalidade, sem lugar ao uso de uma máscara ou resguardo numa redoma que o impeça de ir além daquilo que é considerado politicamente correto. A fina ironia, essa, está sempre presente. O semblante carregado faz parte do figurino, não deixando transparecer qualquer sinal de nervos ou até emoção. Assim se apresentou em todos os países pelos quais passou e, goste-se ou não, a veia vencedora foi legitimando um comportamento… especial.

Não se pode marcar, cronologicamente, um momento em que Mourinho tenha adotado esta postura. Sempre foi assim desde que se revelou como treinador: sem papas na língua e sem receios.

Os episódios caricatos são muitos e torna-se difícil ordená-los cronologicamente. As frases são também em número significativo, e muitas delas ocupam a memória do adepto.

O último fim-de-semana, na sequência do empate caseiro com o Southampton, permitiu ao Arsenal aproximar-se do líder Chelsea. No final do encontro, bem ao seu estilo, Mourinho comentou da seguinte forma o bom momento de forma que os gunners atravessam: “Qual momento? O 1-3 frente ao Mónaco?”.

Os mindgames, os recados e as descomposturas à imprensa carregam, muitas vezes, uma intenção subjacente que procura proteger o seu grupo de trabalho ou a sua pessoa. Em Espanha, a perseguição voraz da imprensa constitui uma adversidade por vezes maior que a oposição dentro de campo. O desgaste provocado pela constante pressão da imprensa agastou a sua imagem. Mas será que a dita pressão é assim tão importante para Mou?

Em Inglaterra, na primeira passagem pelo Chelsea, relativizou o conceito: “Pressão? Pressão têm os milhões de pais sem condições que têm que alimentar os filhos”.

Convidando o leitor a fazer um célere exercício de memória, é provável que, da passagem de Mourinho por Portugal, se recorde de alguns episódios curiosos no contacto com a imprensa. A imagem mais sólida foi, naturalmente, transmitida na defesa das cores do FC Porto, sendo que foi ao serviço do clube da Invicta que proferiu a famosa declaração: “Em condições normais, somos muito melhores e vamos ser campeões. Em condições anormais, também vamos ser campeões”.

Já de encarnado, fica na retina uma conferência de imprensa em que respondeu abertamente a Sabry, justificando ponto por ponto as razões pelas quais o jogador egípcio não figurava entre as opções habituais. A passagem do Benfica foi curta, mas não desviante do caminho que Mourinho queria trilhar. Foi, enfim, condizente com o Mourinho que hoje se conhece.

Anos mais tarde, confrontado com situações semelhantes, Mourinho teve menos paciência. Primeiro acerca de Pedro León, numa conferência de antevisão a um encontro da Liga dos Campeões: “Porque é que Pedro León não joga? Mas estamos a falar de Zidane ou de Maradona? Não, estamos a falar de Pedro León, que há poucos dias jogava no Getafe. Se trabalhar como eu quero, joga. Se não trabalhar, é mais difícil”.

E abandonou a sala de imprensa, tal como faria anos mais tarde, no regresso a Stamford Bridge, quando questionado acerca da ausência de Kevin De Bruyne.

Se é certo que nestes casos não teve paciência para as questões da imprensa, que considerou pouco pertinentes, é sabido que Mourinho nem sempre vira as costas aos microfones. Em Espanha, chegou até a realizar algum trabalho de casa para ter bons argumentos no contragolpe – não apenas dentro das quatro linhas. A técnica dos papelinhos ficou célebre, e Fernando Burgos provavelmente lembrar-se-á melhor que ninguém das duas ocasiões em que o português fez questão de lhe deixar resposta.

Quanto aos colegas de profissão, a relação de Mourinho também não se rege por um padrão comportamental dito correto. Não há lugar a rodeios e a rivalidade é acérrima. A recente polémica com Jorge Jesus, por causa de Talisca, as críticas também recentes a Allardyce e o confronto com Arséne Wenger, ilustram isso mesmo.

Normalmente, o comportamento dos técnicos passa por demarcarem-se deste tipo de polémicas inerentes aos mindgames de Mourinho, mas também há quem responda de forma enérgica. Jaime Pacheco, numa célebre conferência de imprensa, chamou Mourinho de doente mental.

A atitude de José Mourinho face à imprensa inglesa está diferente, se estabelecermos um paralelo com a sua primeira passagem por Inglaterra. O mesmo se pode dizer ao invés. A prepotência assumida antes do duelo com o PSG desagradou à imprensa britânica, que teceu duras críticas à postura do Chelsea e do respetivo treinador após a eliminação da Liga dos Campeões.

A aura que outrora criou em Inglaterra parece dar sinais de desaparecimento, pelo que urge fazer o que melhor sabe para voltar a consolidar a sua imagem: ganhar.

Boas Apostas!