Há quanto tempo não assistíamos a uma história assim no futebol português, uma história que torna as rivalidades entre os grandes dignas de terem páginas e páginas escritas sobre elas? O corropio de treinadores e jogadores que trocaram de emblema nos três grandes sempre mereceu enorme destaque e, nos últimos anos, tem tido menos ocorrência porque se passou a fazer em antecipação – quem chega primeiro, e com mais dinheiro, a determinado reforço sul-americano – do que a jogar-se em “casa”. No entanto, a noite em que foi anunciada a transferência de Jorge Jesus para o Sporting, ainda a necessitar de confirmação oficial, pode muito bem ser uma daquelas noites em que o futebol português muda.

As razões

Jorge Jesus

Jorge Jesus é figura incontornável do futebol português

O ciclo de Jorge Jesus no Benfica tinha terminado com o bicampeonato. O sucesso arrebatador com que chegou à Luz permitiu ao técnico ter uma carreira atípica de seis anos à frente de um grande português. Do título de 2010, o que mais se notou foi a mudança mental do plantel encarnado, com um autêntico furacão a instalar-se na linha lateral da equipa. Previu-se, na altura, que a equipa poderia entrar numa longa série de vitórias, algo que não se terá verificado na totalidade desejada pela estrutura encarnada. Depois de três anos sem voltar a ser campeão, mas com uma meia-final e duas finais da Liga Europa, o Benfica conseguiu finalmente festejar um segundo e terceiro títulos com Jorge Jesus, juntando-lhe ainda uma Taça de Portugal e cinco Taças da Liga. Ao longo das seis temporadas na Luz, os meios ao seu dispor vieram sempre em crescendo, quer fosse na qualidade dos jogadores ao seu dispor, quer fosse na melhoria do trabalho realizado pela estrutura e equipa técnica no encontrar de soluções para os problemas que se lhe colocavam em campo. Para Luís Filipe Vieira, este é o verão onde tudo deveria mudar, com um orçamento menor e uma mudança também na política desportiva. Esse não era o Benfica de Jesus. Por isso era altura de sair.

As opções

Se perguntassem a Jorge Jesus qual seria o seu grande desejo enquanto treinador, não tenho a menor dúvida que o técnico se veria a treinar um grande europeu. Uma equipa que o dotasse de um orçamento e de objetivos ao nível do título da Liga dos Campeões. No entanto, ao longo de seis anos à frente do Benfica, Jesus nunca viu chegar esse convite. Por um lado, existem no mercado vários treinadores que já conseguiram sucessos mais visíveis (na Liga dos Campeões) ou têm currículo em campeonatos mais exigentes (França, Alemanha, Itália…), acabando Jesus por ficar sempre numa segunda linha quando se pensa em treinadores para um gigante europeu. Por outro lado, o futebol do Benfica sempre teve imenso sucesso na Liga Portuguesa (que quer ao nível técnico, quer ao nível tático, não tem a competitividade das grandes competições europeias), mas sempre viveu com dificuldades em contextos de maior exigência, já que o Benfica foi demasiadas vezes obrigado a mudar de conceitos, fosse porque na Europa as equipas defendessem melhor, fosse porque encontrava adversários de outra monta. As opções para Jorge Jesus passariam, sempre, por encontrar um contrato milionário na Turquia, na Rússia ou no Oriente. Tudo soluções que não lhe permitiriam fazer muito diferente do que aquilo que tinha no Benfica. Daí a recusa do técnico em aceitar as propostas que Jorge Mendes lhe terá apresentado.

O Sporting

Jorge Jesus Sporting Juniores

Com a camisola do Sporting em 71/72, nos juniores

No Sporting, Jorge Jesus terá pela frente um desafio comparável com aquele que tinha quando chegou ao Benfica. Um grande que passou por uma espécie de purga interna, em fase de recuperação económico-financeira, a precisar de resultados desportivos para solidificar a sua nova estrutura, ambiciosa e fraturante em relação ao passado recente da instituição. Não tem o Sporting o potencial financeiro que o Benfica já tinha em 2009, mas essa pode ser uma questão de menor importância num momento em que todas as grandes equipas portuguesas estão perante a necessidade de reduzir orçamentos. Jorge Jesus irá, ao que se sabe, controlar toda a estrutura do futebol profissional com um simples objetivo: conquistar títulos. Para quem acha que as personalidades de Bruno de Carvalho e Jorge Jesus podem ser conflituosas, a verdade é que ambos querem a mesma coisa: ganhar. E estão dispostos a tudo para o conseguir. Jesus terá a vantagem de estar numa casa onde ninguém se achará maior do que ele, enquanto terá um Presidente a quem agradará (e eventualmente até promoverá) o seu estilo mais conflituoso na abordagem dos acontecimentos. Jorge Jesus sabe que não terá tantos craques ao seu dispor, mas para quem se vangloria de conseguir criar jogadores, isso até não será um grande problema. Cabe-lhe conseguir provar que pode ser campeão em Portugal mesmo sem ter o melhor plantel ou o cofre mais preparado para o mercado de transferências. Como plano para um homem que, à beira de fazer 61 anos, continua a viver e a respirar futebol como sempre fez desde criança, não nos parece nada mal.

Que as boas histórias continuem!