Se a ideia daquilo que é o futebol espanhol está demasiadas vezes presa àquilo que Real Madrid e FC Barcelona fazem com os seus milionários plantéis, uma viagem aos confins do futebol do país de nuestros hermanos ajuda-nos a reposicionar a nossa perspetiva sobre as coisas. Historicamente, podemos dizer que o trabalho de Diego Simeone no Atlético de Madrid tem reconciliado o futebol espanhol moderno com a sua tradição, percebendo-se em projetos como o de Unai Emery no Sevilla ou de Marcelino no Villarreal uma revisitação de um certo estilo onde as “ganas” têm uma presença fundamental.

Olhando para a segunda divisão do futebol espanhol, damos de caras com um nome surpreendente entre os vários históricos que lutam pelo primeiro lugar. Las Palmas, Valladolid, Real Bétis, Sporting Gijón ou Zaragoza são todos clubes que nos habituaram a viver entre os mais poderosos. Já os catalães do Girona, não. A equipa orientada pelo jovem Pablo Machín, que fez a sua educação futebolística no Numancia, tem já uma pequena história na Liga Adelante, mas nunca como antes tinha andado por posições tão destacadas. Fomos à procura das ideias de jogo deste conjunto.

Poder da realidade

Existem duas verdades que ao longo dos anos venho sempre comprovando entre equipas que têm sucesso nas divisões secundárias. Ou existe um poderio económico que coloca em terreno um plantel de nível técnico bastante superior à concorrência, ou são equipas que apostam sobretudo em defender-se dos erros e a apostar nas fragilidades do adversário. Os dois encontros visionados do Girona FC ofereceram a possibilidade de os ver jogar com uma equipa que ocupa as posições mais baixas da tabela, o Barcelona B, e com uma equipa que está na luta pela subida, o Bétis. Em ambos os encontros o Girona FC acabou por perder, o que não nos deve desviar daquilo que nos diz a tabela classificativa. O Girona é o atual terceiro classificado da tabela, a apenas dois pontos do líder, Las Palmas, tendo conseguido somar carreiras similares, quer em casa, quer fora.

Provocar o erro, povoar o centro

Girona Linhas defensivas

Girona em momento defensivo

Em termos defensivos, o Girona FC procura pressionar logo no meio-campo adversário. Apostando numa defesa homem a homem, a equipa não se preocupa muito com os espaços, mas nos dois jogos observados, nenhum adversário conseguiu também aproveitar-se disso. São os avançados quem aparece a pressionar a posse de bola em terrenos muito adiantados, provocando também uma partição das linhas da equipa.

Para além dos dois jogadores mais subidos, existe um terceiro elemento a surgir nesta pressão, que tanto pode ser um jogador de características mais ofensivas – Felipe Sanchón, no jogo em casa -, como pode passar por ser um dos médios mais defensivos. Ultrapassada esta pressão, o Girona arrisca-se muitas vezes a ficar em desvantagem, pelo que os dois médios mais recuados e os laterais costumam apresentar agressividade e não têm medo do centro.

Em termos organizacionais, jogando com três centrais que são, todos eles, mais territoriais do que leitores das tendências adversárias, o Girona tenta não perder a linha entre eles – Ramalho, Richy e Lejeune -, sabendo que qualquer espaço nessa zona lhe pode ser fatal.

Corredores solitários, peso na área

No momento ofensivo, os dois laterais do Girona ganham destaque, já que são autênticos carrilheiros na esquerda e na direita, correndo o campo em profundidade. Cinfuentes foi o homem utilizado em ambos os jogos do lado direito, revelando poucos dotes técnicos, sendo que na esquerda, Aday se mostrou bastante mais efetivo do que Bigas. Na partida onde apresentaram uma estrutura de maior contenção, o Girona procurou sempre colocar a bola num dos laterais, enquanto no outro encontro, com Sanchón a aparecer na segunda fase de construção, coube-lhe a exploração de espaços pelo centro do terreno.

Uma opção da equipa é o passe longo. Sem médios construtores a vir buscar a bola na primeira fase de construção, o Girona fica refém desta arma para escapar à pressão adversária. Na partida disputada em Sevilha, Sandaza funcionou como um autêntico pinheiro, já que os passes longos procuravam, sistematicamente, a sua cabeça, mesmo que muitas vezes estivesse demasiado só para poder entregar a bola a um colega. Frente ao Barcelona B, mais acompanhado, tendo em Mata um avançado com características semelhantes, a bola acabava por ter maior aproveitamento na metade ofensiva do relvado.

Uma atitude mental

Isaac Becerra Girona

Becerra manda na baliza

Com pouca qualidade e menor complexidade na forma de jogar, a equipa de Pablo Machín não sobressaiu nas observações feitas. No entanto, percebe-se bem quais os fatores que levam o Girona a estar tão bem classificado na Liga Adelante. Em primeiro lugar, a forma como povoa a zona central da defesa, apoiada por dois médios que também recuam bastante, permite-lhe ter uma das defesas mais eficientes do campeonato – só o Valladolid sofreu menos golos e o guarda-redes Isaac Becerra está considerado como o melhor da Liga Adelante pelo jornal Marca. Em segundo lugar, o poder físico dos seus avançados e a exploração em velocidade da progressão nas faixas, ajuda a equipa a encontrar, muitas vezes, a solução na área adversária. Quer Sandaza, quer Sanchón já marcaram 10 golos cada na atual Liga. Finalmente, a pressão alta também oferece possibilidades de jogar com eficácia no erro do adversário, encontrando situações de vantagem.

Assim se percebe que um plano muito simples e básico, junto com o foco competitivo e a agressividade na procura da bola, podem resultar numa época de sucesso e, quem sabe, o inesperado concretizar do sonho de pisar a relva da Liga BBVA.

Boas Apostas!