O futebol de rua está a morrer!

O futebol da nossa infância, marcado pela ingenuidade, irreverência e imitação dos grandes ídolos, não tem espaço nos dias de hoje, devido à dimensão que o futebol táctico ganhou nos últimos anos. A modernização do desporto-rei absorveu a forma espontânea e única de praticar o futebol profundo que valorizava a criatividade e a imaginação.

Era na rua que começávamos a ganhar as nossas primeiras alcunhas. “Passa ao Pelé! Chuta Ronaldo! Bem jogado Maradona! Bom golo Messi! És o maior Eusébio!”

Nomes imortais do futebol que ganhavam nova vida por estas ruas fora. Fosse asfalto, calçada, relva ou areia, tudo servia de pretexto para pegar na bola, formar equipa e começar a jogar.

Saudades de chegar a casa a transpirar e com feridas nos joelhos. O tempo voava e nós limitávamos-nos a aproveitar cada momento com a bola nos pés. Corríamos, fintávamos, sorríamos e caíamos mas logo a seguir levantávamo-nos. Sempre à procura de nos libertarmos e partirmos no um-para-um. Sem pensarmos nas implicações que uma perda de bola infantil podia originar. Ao fim ao cabo éramos mesmo isso, infantis mas felizes, num tempo que não volta atrás, um tempo distante mas não apagado das nossas memórias.

Cada um jogava por si na tentativa de ser o melhor da sua rua e, consequentemente, o primeiro a ser escolhido pelos capitães. Ninguém queria ser o último.

Os jogos eram mais duros, mais evoluídos do ponto de vista técnico e mais apaixonantes. Características que passavam despercebidas a nós, miúdos ingénuos, que apenas queríamos jogar e evoluir sem estarmos preso a conceitos e a concepções tácticas. Imitávamos os nossos ídolos, a finta que tínhamos visto no último jogo, a finta do dia anterior que todos procuravam recriar na rua, na escola e no recreio, mas o primeiro que conseguisse transportá-la para o campo seria aplaudido e invejado. Os festejos que passavam na televisão também eram comentados, coordenados e repetidos.

O tempo em que chegávamos da escola, pegávamos na bola e íamos para a rua dar uns toques com a esperança que mais alguém aparecesse para que, num sítio qualquer, independentemente das dimensões, pudéssemos jogar. Na tentativa de criarmos uma intimidade com a bola, até que a noite caísse ou que os nossos pais nos chamassem para jantarmos.

Formação

É inegável o contributo que o futebol de rua tem tido na formação de base dos jogadores de topo. Vejamos o caso de Pelé, Eusébio, Cruyff, Maradona, Ronaldo ou, mais recentemente, Ronaldinho, Rooney, Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar.

A paixão pelo futebol persiste mas de maneira diferente. Já não existe a paixão pelo jogo e pelo improviso. Hoje vivemos num desporto mais conservador e táctico.

O papel da formação nos clubes tem sido amplamente discutido nos fóruns de futebol. Muitos clubes optam por fazer o caminho dos títulos em detrimento da formação, privilegiam as conquistas colectivas do que o crescimento individual.

A liberdade e a criatividade estão a ser postas em causa. Cada vez mais vemos os jogadores presos às suas posições e às instruções que recebem dos treinadores. O futebol evoluiu do ponto de vista táctico mas, na teia da modernização, tem de haver espaço para que os criativos possam surgir. Isso só será possível se não existirem limitações e recuperarmos o futebol de rua.

O prazer e a paixão pela prática nascem com o primeiro contacto com a bola. Uma relação que deve ser cultivada na rua. É nesse meio que os jogadores aprendem a fugir ao contacto, a driblarem os obstáculos como os buracos, as pedras, os degraus (sim degraus!) e muitas outras adversidades.

O futebol não tem classes sociais mas, se olharmos para a história, é dos mais desfavorecidos que acabam por surgir mais jovens a passar do futebol de rua para o futebol dos clubes. O futuro de esperança começa na rua, uma rampa de lançamento e a possibilidade de fugir de uma vida predestinada ao insucesso.

A rua é vista como o palco dos sonhos, a essência do futebol e onde os mais novos aprendem a não se desligarem do jogo por um segundo que seja, a malandragem no bom sentido.

Com o desaparecimento do futebol de rua, caminhamos para um tempo em que os jogadores são mais completos. Um período que ficará marcado pelos génios que serão jogadores mais completos e pelos jogadores completos que serão cada vez menos génios. Os criativos só terão a espaços o seu lugar no futebol moderno.

A falta que eu tenho do meu, do vosso, dos nossos dias passados na rua a jogar futebol. Obrigado por me teres ensinado a gostar do futebol.

Até já, futebol de rua!

Boas Apostas!