Há apenas duas épocas os Canarinhos andavam sossegados no seu dia-a-dia de clube da Liga Orangina e Marco Silva dava os primeiros passos como treinador de futebol. Dois anos e meio mais tarde, estão no quarto lugar da Liga Zon Sagres, a um jogo de encerar o campeonato, com uma participação na fase de grupos da Liga Europa pelo meio. Alto! Rebobinemos para perceber como se chegou aqui.

Traffic de influências

Em 2009 o Estoril Praia e a Traffic iniciaram uma parceria desportiva. O acordo pressupunha que a empresa brasileira dirigisse o clube durante um ano, findo o qual poderia renovar e alargar o âmbito do acordo, adquirindo uma parte da SAD do clube da Linha. A Traffic Sports Europe 74 é uma das maiores empresas de marketing desportivo do Brasil – com delegações nos Estados Unidos, Portugal e Holanda – que opera maioritariamente na área do agenciamento de jogadores. Em 2010, o Grupo João Lagos, que detinha 74% da SAD do Estoril, comunicou à CMVM a venda da sua participação à Traffic, pelo valor de duzentos mil euros. Além de por em ordem as contas dos Canarinhos, o novo sócio maioritário colocou vários jogadores, maioritariamente brasileiros, no plantel. O investimento rendeu e agora há rumores do interesse do Manchester City em comprar o clube da Linha, substituindo a Traffic no comando da SAD, e já se fala em negociações que que rondam os quinze milhões. E resolveu dar uma oportunidade à prata da casa, com a escolha de Marco Silva, primeiro para diretor para o futebol e mais tarde como treinador.

Efeito Marco Silva

Marco Silva

O homem por detrás do sucesso

O agora técnico do Estoril Praia foi um defesa direito razoável, formado n’ Os Belenenses, que fez carreira sobretudo pelos relvados das divisões secundárias, os últimos cinco anos passados no clube da Linha, na Liga de Honra. Quando, no final da temporada de 2011, decidiu dar descanso às chuteiras foi-lhe proposto um novo desafio, o de ser o novo diretor desportivo dos Canarinhos.

Estava Marco Silva ainda a adaptar-se às novas funções quando a saída de Vinícius Eutrópio o empurrou para o banco do Estoril. Nessa altura o clube ocupava a décima quinta posição da tabela e o plantel não primava pelo rigor e pela disciplina. Estreou-se como treinador com uma derrota, em casa, com o Penafiel. Uma das únicas três que somou nos vinte e quatro jogos que faltavam para terminar o campeonato. Nesse ano o Estoril sagrou-se campeão da II Liga e subiu à primeira divisão, o que não acontecia há sete longos anos. Não admira que Marco Silva tenha sido considerado o Treinador do Ano. Mas o melhor ainda estava para vir. Na época seguinte, os novatos do clube da Linha deixaram todos de boca aberta. Não só praticavam bom futebol como iam ganhando e amealhando pontos. O Estoril terminava em quinto e garantia uma estreia absoluta, a participação na Liga Europa.

Parcerias felizes

A Traffic proporciou ao treinador canarinho a matéria-prima e ele soube transformá-la em bens altamente transacionáveis. No verão passado o mercado ditou as suas leis e a formação estorilista viu sair vários dos seus esteios: Licá e Carlos Eduardo (Porto), Jefferson (Sporting), Steven Vitória (Benfica) e Luis Leal (Al Ahly).

Era de temer o pior para a temporada de 2013/14. A equipa teve que se reinventar e chegou a ressentir-se um pouco da sobrecarga de jogos provocada pela participação na Liga Europa. Mas com personalidade e muito querer mantiveram-se sempre à tona. E, prestes a por o ponto final na temporada, lá estão eles, empoleirados na quarta posição, logo atrás dos três grandes.

Não há coincidências. Se, ao longo do ano, Marco Silva foi associado a clubes de referência, nacionais e estrangeiros; se os jogadores do Estoril valorizam e têm mercado; se há interessados de peso na compra da posição detida pela Traffic, é porque o trabalho está a ser muito bem feito.

Boas Apostas!