Em Novembro, quando assumiu o lugar de treinador principal, em substituição de Ian Halloway, o Crystal Palace tinha sete pontos em doze jogos disputados. Ao fim de trinta e oito jornadas, os Eagles terminaram o campeonato na décima primeira posição, com quarenta e cinco pontos. Os adeptos estão rendidos e gratos, pela melhor classificação de sempre em vinte e dois anos. Deve ser muito gratificante, terminada tão árdua tarefa, receber o reconhecimento dos pares, que lhe atribuíram o prémio de Treinador do Ano na Liga Inglesa. Nada mais justo.

Causa perdida

As negociações para firmar contrato com o Palace duraram quase um mês. Todos aqueles a quem Tony Pulis pediu conselho – de Sir Alex Fergusson a Peter Coates – lhe disseram para não se meter nisso. Era uma causa perdida da qual ele só podia sair chamuscado. Mas o galês não se assustou com o tamanho do desafio. Os Eagles tinham subido à primeira divisão inglesa “sem saber ler nem escrever” e no verão desatou a contratar jogadores, sem grande critério. Foram dezasseis novas entradas, de uma só vez. Ian Halloway estava em sofrimento desde o início da temporada. Ao fim de dez derrotas em onze jogos era simplesmente um homem desesperado por ser dispensado dos seus deveres. Pulis tinha reputação de conseguir bons resultados com pouquíssimos recursos, e foi o que fez mais uma vez. Chegou a Selhurst Park e injetou confiança no plantel. Fez com que os jogadores acreditassem que era possível um milagre e eles seriam os santos milagreiros.

Saiu-lhes do corpo

Chamack Crystal Palace

Chamack reencontrou-se com os golos

Arrancou de cada um dos jogadores à sua disposição o melhor que tinham para dar, alguns descobriram capacidades que nem sabiam ter. Esse é o maior mérito de um gestor de homens. Damien Delaney era um jogador cansado das andanças da segunda divisão inglesa e esteve prestes a terminar a carreira quando saiu do Ipswich. Influenciado por Pulis, revelou-se um defesa central enorme, essencial para o sucesso que os Eagles tiveram este ano. Mas não foi o único. O clube de rejeitados – Jerome, Dikgacoi, Bolasie e Chamakh – sofreu idêntica transformação. Aliviou a pressão sobre Dwight Gayle e deu tempo ao jovem de vinte e três anos para se afirmar dentro do coletivo. Em Janeiro, foi buscar cinco reforços: Tom Ince veio por empréstimo do Blackpool, Joe Ledley do Celtic, Scott Dann do Blackburn, Jason Puncheon do Southampton e Wayne Hennessey dos Wolverhampton Wanderers. Sem vedetas, até porque não havia dinheiro para isso, e já a pensar no futuro.

Para atestar a mudança de mentalidade operada pelo treinador de cinquenta e seis anos, estão aí os resultados contra as equipas do topo da tabela. Vitória de 1-0 sobre o Chelsea e 2-3 ao Everton, em Goodison Park. Depois há também aquele extraordinário empate a três, em Anfield, recuperando de três golos de desvantagem, no jogo que acabou em definitivo com as pretensões do Liverpool ao título. Todos momento em que a organização tática, a determinação e vontade dos jogadores, fizeram com que o Crystal Palace se superiorizasse a adversários claramente mais fortes. Não há melhor evidência do efeito Tony Pulis.

De Selhurst Park para o mundo

Quem diria que terminar uma época no meio da tabela podia ser mais inspirador, para jogadores, equipa técnica e adeptos – os do Palace e os que simplesmente se entusiasmam com o futebol? Para quem, à partida, parecia condenado a uma temporada miserável e posterior regresso às divisões secundárias, o décimo primeiro lugar sabe a título. Quando isso se consegue com esforço e investimento pessoal, tendo consciência das limitações mas descobrindo novas forças, é ainda mais entusiasmante. E dá esperança para o futuro próximo. Em Selhurst Park os fãs habituaram-se à montanha russa de promoção, um ano na competição de topo e imediata descida. Mas desta vez há uma base sobre a qual construir algo mais estável e consistente. Apesar de alguns boatos de possíveis convites, parece certo que Tony Pulis regressará ao Palace depois do casamento da filha e um breve descanso, para preparar a próxima época. Aparentemente, o galês fez questão de acertar o orçamento para o próximo ano com a direção do clube antes de seguir para férias. E a pré-temporada passa por uma mini-digressão por terras do Tio Sam, onde a campanha do Crystal Palace tem vindo a conquistar adeptos, a julgar pelas audiências televisivas.

Boas Apostas!