Na ressaca da primeira jornada europeia desta temporada, olhamos para as prestações dos clubes portugueses nas respetivas provas e não podemos deixar de perguntar, uma vez mais, se a suposta qualidade do futebol português é uma realidade ou um mito. Quando boa parte dos discursos ainda enchem a boca com a frase “futebol campeão europeu”, continuamos a procurar respostas para as perguntas que as exibições e os resultados nos geram.

Ranking e qualidade

Portugal está a perder lugares no ranking, é um facto. Mas a constituição do mesmo depende, sobretudo, de boas carreiras de determinados clubes (em Portugal, sobretudo Benfica e FC Porto) e menos de uma análise global do futebol de um país. Não será por acaso que os nossos principais concorrentes se baseiam no mesmo número de equipas (na França, Paris SG e Monaco, na Rússia, CSKA e Zenit) para entrar na discussão de mais equipas nas melhores competições.

O ter Portugal num alto lugar no ranking não significa, na prática, que uma qualquer boa equipa de um país mal posicionado no ranking possa discutir um resultado ou uma eliminatória. E numa semana em que as equipas portuguesas jogaram, genericamente, com equipas de países distantes no ranking, comprovou-se isso mesmo. A jogar em casa, as equipas portuguesas não conseguiram ultrapassar adversários da Turquia, da Dinamarca e da Bélgica.

Questões de mentalidade

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Porto em dificuldades no jogo aéreo

Repete-se demasiadas vezes que um sorteio foi fácil quando se nos deparam conjuntos que não estão nas principais ligas de futebol da Europa. No entanto, toda a facilidade é aparente. Nuno Espírito Santo falava, sobre o FC Copenhaga, que nos dias de hoje não havia surpresas nas competições europeias, referindo-se à possibilidade de analisar vídeos de muitos jogos, para além da habitual observação in loco. No entanto, as equipas portuguesas acabam muitas vezes surpreeendidas pelos adversários.

Será um problema de mentalidade que a equipa do Braga seja subjugada pelo Gent durante longos minutos? Ou aquilo que Nuno Espírito Santo refere serve mais às equipas adversárias do que às equipas nacionais? A preparação de um plano de jogo que envolva um profundo conhecimento do adversário parece ser o que está mais vezes em falta nas equipas portuguesas, pelo que, a partir do momento em que se começam a vulgarizar as armas de observação, mais difícil será para um conjunto nacional superar adversários.

Questões de modelo

Aquilo que mais vezes tenho explorado nas análises aos comportamentos das equipas nacionais é quanto ao seu modelo de jogo. Continuo a defender que onde os treinadores portugueses têm mais sucesso é na organização de um sistema que compreende a organização e a transição defensiva. Ora, esse modelo é sistematizado com maior impacto no resultado final quando se atua perante conjuntos de nível superior, que assumam o controlo do jogo através da posse de bola. Esta semana, voltámos a ter um excelente exemplo na atuação do Sporting frente ao Real Madrid. Capacidade de pressão sobre o jogador com bola, fecho do corredor central com povoamento dessa zona e das linhas de passe, controlo das subidas de extremos e laterais.

Mas quando temos que enfrentar um FC Copenhaga ou um Besiktas mais recuados, os pontos-fortes das equipas portuguesas demoram mais a evidenciar-se. Apesar das equipas grandes portuguesas terem muita experiência de jogar em construção contra conjuntos recuados, a velocidade de execução em espaços curtos é decisiva para derrubar os adversários e são poucas as equipas (ou os jogadores) que manejam bem esse princípio. Não é por acaso que Jonas tem sido tão decisivo nos últimos títulos do Benfica. Por ser um jogador que se posiciona e decide em conformidade com aquilo que o jogo lhe pede.

Espaços para evolução

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Controlo de evolução com bola

Os espaços onde o futebol português poderá encontrar meios para crescer em termos europeus passam, sobretudo, pelo aumento de competitividade nos escalões de formação, hoje em dia fracos em comparação com o objetivo a atingir na fase profissional. Também é essencial que, mais do que viver debaixo da bandeira “o que é nacional é bom”, se deve estar constantemente em busca de respostas para os problemas que vão surgindo. E conseguir vencer confrontos com equipas de nível menor, nas provas europeias, tem sido um problema poucas vezes estudado e analisado.

Finalmente, o aumento da competitividade tática nos jogos nacionais só poderá ajudar à participação. A valorização dos encontros da Liga NOS, não só focados nos jogos das equipas maiores mas, talvez sobretudo, nos encontros entre equipas do meio da tabela para baixo, é fundamental. Equipas que atuem com um futebol mais complexo e elaborado nas suas diversas fases de organização e transição, que preparem os seus jogadores para serem mais evoluídos no reconhecimento do jogo, é um passo essencial para se ter melhores equipas.

E são as melhores equipas, em toda a sua globalidade (e não apenas no papel), quem ganha mais vezes.