O jogo grande desta jornada em Inglaterra coloca frente a frente duas equipas de topo que ficaram fora das competições europeias. Quais são, exatamente, os custos e benefícios para os clubes ingleses que participam ou se veem arredados do futebol europeu? Mesmo com riscos inerentes, ninguém desdenha uma participação na Liga dos Campeões. Mas a Liga Europa não é atrativa para os ingleses.

Leicester, Arsenal e Tottenham tiveram apuramento direto para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Manchester City chegou lá via play-off. Quinto e sexto classificados, United e Southampton, entraram diretamente para a fase regular da Liga Europa. O West Ham fraquejou nas pré-eliminatórias. Chelsea e Liverpool, graças ao décimo e oitavo lugar da temporada passada, ficam sem futebol europeu durante um ano.

Pertencer à elite

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O Manchester City não se tem poupado a despesas para reclamar o seu lugar entre a eleite europeia do futebol.

Não é por acaso que a Liga dos Campeões é conhecida também por Liga Milionária. A competição europeia de elite é o el dorado de todos os emblemas do Velho Continente, sem exceção. Mesmo os maiores colossos do futebol europeu procuram nesta prova a validação do seu poderio desportivo, que se deseja superior ao económico. Para todos os outros é uma montra única para treinadores e atletas se mostrarem no contexto competitivo mais exigente, granjear prestígio e alargar horizontes para as respetivas carreiras. Mesmo com os riscos inerentes a acumular mais uma frente de batalha ninguém desdenha uma participação na Champions. Não é por acaso que o Manchester City foi buscar Pep Guardiola e anda há anos atrás da vitória na Liga dos Campeões. É o carimbo oficial que falta à instituição multimilionária e que atestará em definitivo a sua pertença à elite do futebol europeu.

Liga Europa não seduz

Já a Liga Europa é olhada com maiores reservas porque o retorno é infinitamente inferior. Em Inglaterra, então, a segunda prova europeia é amplamente desprezada. E é fácil perceber porquê. Há dinheiro suficiente na Premier League, mesmo em clubes de segunda e terceira linha, e os clubes não estão dependentes dessa via de financiamento para serem competitivos. E a Liga em si é tão mediática, tem uma cobertura tão global, que os ativos não podem aspirar a maior projeção do que aquela que têm no campeonato.

José Mourinho, em vésperas de iniciar a participação na Liga Europa, disse claramente que esta é uma competição onde preferia não estar, ideia partilhada pela estrutura do clube e pelo plantel. Para o Manchester United a Liga Europa não acrescenta nada e pode dificultar a prossecução de outros objetivos, esses sim prioritários. No caso dos Red Devils é claramente o título inglês. E o treinador português queixa-se da Liga não dar margem de manobra para arranjos de calendário, que no caso de quem joga na Europa à quinta seria passar o jogo do campeonato, sempre que possível, para segunda-feira. Em outubro o Man United tem uma semana em defronta o Liverpool em Anfield na segunda, recebe o Fenerbahce na quinta e vai a Stamford Bridge no sábado. Podia ser pior: o jogo com os turcos podia ser em Istambul!

Aqui entramos nas desvantagens de estar envolvido nas competições europeias. Desgaste acumulado é a resposta óbvia. Em Inglaterra já é comum duas vezes por semana, sobretudo em alguns trechos da época. A rotação de jogadores é quase uma inevitabilidade, mais do que uma opção técnica. Mas o maior problema é mesmo a redução do treino. Com jogos a cada quatro dias, com viagens pelo meio e período de recuperação física, resta muito pouco tempo para a preparação dos jogos, em especial para o trabalho tático e treinar situações específicas.

Ficar de fora pode ser oportunidade

Ausência das competições europeias equivale a mais tempo de qualidade para a preparação dos jogos.

Ausência das competições europeias equivale a mais tempo de qualidade para a preparação dos jogos.

Este ano Liverpool e Chelsea ficam de fora. As maiores dificuldades vão para a motivação dos jogadores e há, inclusivamente, dificuldade em captar e segurar jogadores de topo, que querem maior visibilidade. O campeonato inglês é, talvez, o único que consegue minorar essas desvantagens. No caso destes dois clubes, a falta de competições europeias pode ser uma oportunidade. Ambos os treinadores vão ter mais tempo de qualidade para trabalhar as respetivas equipas, particularmente importante para conjuntos que estão ainda em formação. Aliás, os Reds têm boas recordações da última temporada (2013/14) em que se viram nestas circunstâncias, aquela em que estiveram a um passo do ambicionado título. Claro que uma coisa não implica necessariamente a outra. Mas certamente não ter esse desgaste acrescido pode ajudar a que clubes como o Chelsea e Liverpool possam tornar-se mais competitivos em relação a adversários como o City, Arsenal, Leicester e mesmo Tottenham. Para clubes do nível do Southampton o maior risco é a dispersão de recursos. A manta que é o plantel dos Saints pode ser curta demais para cobrir todas as provas em que a que equipa está envolvida.