Nunca foram uma espécie comum, mas nos dias de hoje podem muito bem estar em risco de extinção. Falo dos jogadores de futebol profissional de um amor só, ou seja, de um único emblema. Falo de homens cujas qualidades e percurso de vida refletem a filosofia da camisola que vestem, que, de certa form,a se confundem com o clube que representam. Poucos, se algum, personalizam melhor esta ideia que Carles Puyol, o capitão do Barcelona. Mesmo no ano em que anuncia a retirada, quando a equipa está sob fogo cerrado, ele toma a iniciativa de dar a cara. E isso diz muito sobre o homem, mas há muito, muito mais.

Exemplo dentro e fora de campo

Carles Puyol i Saforcada, catalão de gema nascido em Pobla de Segur, chegou ao Camp Nou em 95, com dezassete anos. Aos vinte e um já era capitão, ocupando o lugar quando o histórico Luis Enrique se retirou. Nunca mais a braçadeira mudou de mãos. Do alto da sua camisola 5, Puyol, viu muita gente chegar e partir. Jogou ao lado de figuras maiores, algumas das quais já arrumaram as chuteiras, como Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Figo, Riquelme, Deco ou Thierry Henry. Conheceu Frank Rijkaard como colega e, mais tarde, como treinador. Estava lá quando Xavi, Iniesta e o pequeno Messi se instalaram para, com o regressado Guardiola, reinventar o futebol.

Quinze épocas como profissional, quinhentas e noventa e três exibições, seriam suficientes para fazer dele uma lenda viva. Seis campeonatos, duas Copas del Rey, seis Supercopas espanholas, três Ligas dos Campeões, duas Supertaças Europeias, duas vezes campeão do mundo de clubes, sem contar com o Campeonato do Mundo e Europeu por Espanha, são o que ficará inscrito no palmarés. Mas para os adeptos, para quem gosta de futebol, o que fica são os momentos únicos que tivemos o privilégio de assistir. Como a defesa com o peito, com a baliza aberta, frente ao Lokomotiv de Moscovo, em 2002. Uns disseram que defendeu com o coração, outros com o emblema. Liberdades poéticas, Puyol limitou-se a fazer o que tinha que ser feito. Ou então a marcação serrada que fez a Luis Figo, em Outubro de 2000, na primeira vez em que o português regressou a Barcelona depois da controversa saída. Puyol foi irrepreensível, não dando um dando um minuto de descanso ao adversário. A primeira vez que levantou o troféu da Liga dos Campeões, em 2006, a exibição inesquecível dos 6 a 2, no Santiago Bernabéu, em 2009, coroada com um golo de cabeça. Ou a noite de 28 de Maio de 2011, quando, na tribuna de Wembley, deu um passo atrás para que fosse Éric Abidal a receber a taça.

A despedida

Puyol Campeonato do Mundo

Um verdadeiro campeão do mundo

Quando em Março anunciou a despedida, fê-lo nos seus termos e sem rodeios. Foram temporadas sucessivas a jogar com aquela intensidade que todos lhe reconhecem, nunca se poupando, e agora não dá mais! Houve quem se tivesse dado ao trabalho de contabilizar, foram trinta e oito lesões, algumas bem sérias. A cabeça quer mas o corpo já não tem condições de corresponder ao nível de exigência que Carles Puyol se auto-impôs. E assim, sem dramas, o capitão liberta o seu clube de sempre dos últimos anos de contrato. “Quem me conhece sabe que vou lutar até ao fim para tentar melhorar e ajudar a equipa a ganhar.” Ninguém duvida.

As reações vieram de todo o lado e foram unânimes em louvar-lhe o espírito, a liderança, a entrega e ética profissional. Disse ele há uns anos, “Eu não tenho a técnica de Romário, o ritmo de Overmars ou a força de Kluivert. Mas trabalho mais que os outros. Sou como aquele aluno que não é tão inteligente mas estuda muito e acaba por se sair bem.” É verdade que ele não é o exemplo acabado do tiki-taka mas também não é nenhum tosco. É capaz de passes certeiros e até de fazer arrancadas com a bola nos pés, como já vimos. Mas não é isso que a equipa precisa dele. Não sendo um homem alto, os duelos aéreos nunca foram um problema e tem na sua conta grandes golos de cabeça. Mas o que fica na retina é a atitude. Desde o primeiro minuto com a camisola blaugrana, Puyol evidenciou a maturidade de um veterano. Todos os que jogaram contra ele o consideram um adversário temível, mas sempre correto. Aguerrido, incansável, sim. Mas sem violência ou golpes baixos.

Anjo da guarda

No dia seguinte ao anúncio de que não continuaria, o companheiro do centro da defesa Culé, Gerard Piqué, escreveu-lhe uma sentida carta aberta, chamando a “Puyi” o seu anjo da guarda. “Sabia que se um dia falhasse tu estarias lá para me salvar.” E ainda remata, “quero que saibas que vou sentir falta das nossas conversas no balneário, dos teus conselhos e, sobretudo, das tuas «broncas» no terreno de jogo. És único e irrepetível. Dá-me vontade de rir quando falam de contratar o «novo Puyol». Pois que procurem, nunca o irão encontrar.”

Boas Apostas!