Foi há pouco mais de 10 anos, a 20 de Setembro de 2004, que Brian Clough fechou os olhos pela última vez.

Aquele que, para muitos, é considerado como um dos melhores treinadores de sempre, foi derrotado por um cancro no estômago. Aos 69 anos perdeu um jogo, algo a que não estava habituado. Um ano antes, os excessos com o álcool fizeram com que tivesse de se submeter a um transplante de fígado. Fim trágico para um treinador que marcou uma era no futebol europeu.

Poucos são os treinadores que podem apresentar um curriculum semelhante ao homem que em tempos afirmou: “Não posso dizer que fui o melhor treinador mas estive no top 1.”. Declarações que demonstram o nível de exigência e carácter de um treinador que que se tornou referência.

A carreira como jogador foi efémera mas de qualidade. Em 274 encontros apontou 251 golos. Terminou o sonho aos 26 anos depois de passagens pelo Middlesbrough e o Sunderland, onde abandonou os relvados definitivamente aos 29 anos na sequência de uma rotura de ligamentos no joelho aos 26.

Subida a Pulso

Um ano depois começou a sua aventura no banco de suplentes.

Com o seu amigo e adjunto, Peter Taylor, formou uma das duplas de maior sucesso no futebol mundial. Taylor teve um percurso ligado às balizas. O adjunto de Brian, complementava o seu perfil e temperamento acesso. Gerindo da melhor maneira as tensões que eram criadas pela frontalidade com que Clough se dirigia aos jogadores. Peter foi um dos percursores do fenómeno do scouting. Muitos foram os jogadores indicados por si para integrarem os seus plantéis. Uma capacidade única de análise e avaliação de jogadores.

A primeira aventura de Clough como treinador principal teve início no Hartlepool da Division Four.

Brian Clough

Brian Clough veio transformar o papel do treinador, carregando-o de várias outras valências

O jovem técnico não se intimidou com o período de instabilidade que viveu na equipa do norte de Inglaterra, aproveitando para se motivar e alcançar feitos notáveis. Pela primeira vez, os adeptos respiraram de alívio, terminando o campeonato de forma tranquila. Na época seguinte, em 1966/1967, o conjunto inglês alcançou a subida de divisão.

Seguiu-se o Derby County, onde o jovem Brian confirmou o motivo pelo qual o seu nome corria o mundo do futebol. Focado em devolver o Derby à Premier League, Clough começou por operar uma verdadeira renovação. Jogadores experientes e com rodagem na Championship ao serviço do Derby rumaram a outras paragens. Taylor recomendou jovens ambiciosos e com vontade de triunfar, à imagem do treinador.

Aos 32 anos, o jovem e trabalhador técnico inglês definiu o conceito de manager, acumulando para si funções muito mais complexas do que as de um treinador.

Brian Clough assumiu a organização do clube inglês e depois de ver os resultados partiu para uma série de vitórias, focado no objectivo principal de regressar à Premier League.

Duas épocas após a chegada ao Derby, garantiu o título da Championship e consequentemente a tão desejada subida.

Foi no Derby County que Brian Clough começou a dar nas vistas e a mostrar trabalho

Foi no Derby County que Brian Clough começou a dar nas vistas e a mostrar trabalho

Clough e Taylor só precisaram de duas temporadas na Premier League para escreverem o seu nome na galeria dos imortais. O Derby somava 58 pontos, mais um que o City, Leeds, e dois que o Liverpool. Os últimos dois clubes tinham um jogo de atraso e o caminho aberto para o título. Uma semana depois quando os jogadores já passavam férias, Taylor descansava em Maiorca e Clough passeava com a família nas ilhas Scilly, o Leeds e o Liverpool não conseguiram vencer os seus respectivos jogos, deixando escapar o primeiro campeonato para o histórico Derby.

Em 1972/1973, a equipa disputou o acesso à final da Taça dos Campeões Europeus depois de eliminar o Benfica na 2ª ronda. O Derby caiu aos pés da Juventus depois de muita polémica à mistura. No campeonato a época não correu bem e os ingleses terminaram em 7º lugar. Brian e a direcção do clube entraram em conflito e terminaram uma relação de pouco mais de 6 anos. No dia 11 de Outubro de 1973, os dois amigos deixaram o County com adeptos e jogadores a  entirem muito a partida de Clough e Taylor.

De forma precipitada e inconsequente, a dupla assinou pelo Brighton & Hove Albion, da terceira divisão, apenas uns meses após a disputa da meia-final da Taça dos Campeões Europeus frente à Juventus. A experiência não foi bem sucedida e no final da época de 1973/1974 recebeu um convite do Leeds United, um antigo rival dos tempos do Derby. Pela primeira vez na história, Taylor não acompanhou Clough para Elland Road. Para surpresa de muitos a ausência do seu amigo Peter foi determinante para o desfecho final. Em 6 encontros, Brian apenas venceu um. Ao fim de 44 dias, o Leeds e o manager inglês colocaram ponto final numa ligação repleta de sentimentos e emoções.

Forest Europeu

Em Janeiro de 1975 chega ao Nottingham Forest, clube da mítica cidade onde a história de Robin Hood ganhou dimensão e fama. Peter Taylor voltou a unir esforços com Brian Clough no Verão de 1976. Juntos abraçam um projecto motivador e que se viria a tornar histórico.

Na mesma época que Taylor regressa aos braços do amigo, juntos conquistam a promoção para a Premier League. Poucos acreditavam que na temporada seguinte, o Nottingham contasse para as apostas sobre o título. A verdade é que mais uma vez a dupla de treinadores deu provas da sua qualidade e venceu o campeonato, juntando também a conquista da Taça da Liga.

Brian Clough no Nottingham Forrest

Brian Clough no Nottingham Forrest, o auge da carreira de um e de outro

O melhor ainda estava para vir quando em 1978/1979, o Forest dominou a Europa. A equipa orientada por Clough venceu o Malmö, por 1-0, na final da Taça dos Campeões Europeus. Trevor Francis foi o autor do golo. Avançado cujo passe custou perto de 1 milhão de libras, valor astronómico para a data.

No ano seguinte, a equipa cai de rendimento nas provas nacionais mas volta a passear pela Europa. Vitória frente ao Barcelona na Supertaça Europeia e vitória frente ao Hamburgo na final da Taça dos Campeões Europeus. Destaque para os 42 jogos consecutivos sem conhecer o sabor da derrota. Uma marca que personifica bem a qualidade do Nottingham.

Os problemas com o álcool e os desentendimentos com o amigo de longa data, fizeram com que os dois seguissem caminhos diferentes a partir de 1982/1983.

Clough tentou sozinho fazer aquilo que conseguiu com Taylor mas sem o sucesso de outrora. As vitórias só voltaram a surgir dez anos depois, em 1988, com a conquista da Taça da Liga.

17 anos depois de assumir o comando do Nottingham, Clough decidiu abandonar definitivamente os relvados depois de descer de divisão.

Com uma genialidade muito própria e uma personalidade bastante vincada, o carismático inglês tornou-se uma máquina de vitórias. Um génio, egocêntrico e provocador que puxava para si as atenções dos media, sendo dos primeiros treinadores a trabalhar de forma vincada a componente comunicacional. Um visionário transversal e intemporal que rompeu com as rotinas para criar uma lenda que revolucionou o futebol inglês.

Clough vivia com a necessidade constante de ter de se superar todos os dias. Um manager movido pelos desafios diários de construir uma equipa de raiz e atingir o topo. Um caso único do futebol pré-moderno e um fenómeno de impossível reprodução nos dias que correm. Um exemplo que todos os anos tentamos imitar em jogos como o Football Manager.

Obrigado Brian.

Boas Apostas!