Manhã de quinta-feira, dia 2 de outubro de 2014.

Na cidade da Covilhã, discutem-se os acontecimentos futebolísticos da véspera: o Sporting local foi a Freamunde impor a primeira derrota caseira ao líder da Segunda Liga, e o Benfica sucumbiu na Alemanha aos pés do Bayer Leverkusen, por 3-1. Para o final da manhã, na sede da Federação Portuguesa de Futebol, está marcado o sorteio da 3ª eliminatória da Taça de Portugal, que naturalmente não suscita grande perspetiva nos adeptos. Fase precoce, são ainda 64 os clubes em prova.

Na Covilhã, o último jogo de grande cartaz para a Taça de Portugal foi a recepção a um Sporting de Braga que lutou pelo título de campeão nacional até ao fim, na temporada 2009/10. A ânsia de ver um grande na Cidade Neve reina entre os mais novos, que não puderam assistir aos tempos áureos dos Leões da Serra na primeira divisão. Passaram-se 27 anos desde que o Sport Lisboa e Benfica visitou a Covilhã pela última vez, no velhinho Santos Pinto, já na Serra da Estrela. Vitória encarnada por 0-3, com dois golos de Diamantino e um de Rui Águas sobre uma formação covilhanense que acabaria por terminar a prova na 20ª e última posição. Nessa época, César Brito já militava na formação da Luz, depois de ter deixado de equipar de verde e branco no final da época 1984/85. Foi a segunda transferência entre os dois clubes, depois de Domiciano Cavém na década de 50.

SC Covilhã 0 - 3 SL Benfica 1987

A última vez que o Benfica visitou a Covilhã, foi em 1987 e ganhou por 3 a 0

Voltemos ao final da manhã de 5ª feira.

O sorteio revelou que, na primeira ronda com os grandes inseridos, FC Porto e Sporting CP se defrontariam no Dragão. Na Beira Interior, o clássico foi definitivamente relegado para segundo plano. O Sport Lisboa e Benfica ficou com regresso marcado a uma região na qual não marca presença há quase três décadas, para regozijo de novos e velhos. Os telefones começaram a tocar ininterruptamente, tanto na sede do clube, como nas Casas do Benfica da região. De repente, toda a gente se lembrou do amigo que vai todos os domingos à bola para ver o Covilhã, do colega que tem um familiar na direção do clube, ou do familiar que é sócio do clube, está longe, e provavelmente dispensa ir ao jogo. Azafama invulgar na Cova da Beira, que naturalmente só podia ser gerada pelo verdadeiro ópio das massas: o futebol.

Covilhã, a porta da Serra da Estrela. Ocupada entre setembro e julho pelas centenas de estudantes da Universidade da Beira Interior que dão dinâmica ao quotidiano da cidade, e local de acolhimento dos muitos emigrantes oriundos das beiras durante o Verão, que matam as saudades de casa. Os turistas chegam em dezembro, rendidos aos encantos da neve, sobretudo por imposição dos mais novos. Este ano, a 18 de Outubro, outro evento é fator de forte atração à cidade: a presença do Sport Lisboa e Benfica, vencedor de todas as provas nacionais em 2013/14 que inicia a defesa da Taça de Portugal na Covilhã.

Filiais

O Sporting local, fundado oficialmente em 1923, nasceu da ligação do ex-Estrela Futebol Clube ao Sporting Clube de Portugal, numa época em que existia grande entusiasmo quanto à criação de filiais. António Rebelo de Matos, responsável máximo pelo Estrela Futebol Clube (clube da dita classe alta da cidade), contactou Júlio Cardoso de Araújo, presidente do clube leonino, que deu aval para a criação de uma filial no Interior. Estava fundada a 8ª filial da coletividade de Alvalade, com José Jacinto Ferreira a tornar-se o primeiro presidente do Sporting Clube da Covilhã.

Desengane-se, no entanto, quem crê que a Covilhã é cidade em que predomina, de modo avassalador, o verde e branco. No Tortosendo, bem perto da Covilhã, e um ano antes da fundação do SCC, nasceu a quarta filial do clube da Luz: o Sport Tortosendo e Benfica, freguesia marcadamente benfiquista até aos dias de hoje. A influência do Benfica no concelho da Covilhã estende-se também ao Dominguizo, freguesia onde está sediada a coletividade Sport Lisboa e Águias do Dominguizo, embora se conheça a falange de sportinguistas que aí reside. Além das Casas na região, importa também salientar que em 1966, surgiu o Sport Covilhã e Benfica, que chegou a vencer o campeonato distrital da AF Castelo Branco em duas ocasiões, durante os anos 70. No entanto, a instabilidade a nível logístico e financeiro acabou por inviabilizar a sua subsistência, numa altura em que o SC Covilhã já era a grande bandeira desportiva da cidade, tendo inclusive disputado uma final da Taça de Portugal frente ao Sport Lisboa e Benfica, na década de 50.

Conclui-se que há, por isso, um equilíbrio no que à questão clubística diz respeito na cidade. Rivalidade acesa, mas reina a tolerância, e as provocações são saudáveis entre os rivais da 2ª circular, nas imediações da A23. De resto, o Sporting para os sportinguistas, Covilhã para os benfiquistas e portistas, tem-se demarcado, ao longo dos anos, de qualquer filiação a um clube de maior expressão.

Verde e branco consensual: o do Sporting Clube da Covilhã

Serra da Estrela

Serra da Estrela, onde se localiza a Covilhã, que o SL Benfica vai visitar

A Barbearia Raposo é um dos pontos de paragem obrigatória na Covilhã. O proprietário, Carlos Raposo, só sofre por duas cores: Verde e branco. Tanto pelo Sporting Clube de Portugal, como pelo Sporting Clube da Covilhã. No seu recanto na Rua Pedroso Santos, uma curta estrada separa-o da casa de apostas que é propriedade de um benfiquista. Picardias à parte, – partilhadas com os benfiquistas covilhanenses que passam e não hesitam em abrir o vidro para saudar e provocar o adepto sportinguista – unem-se no gosto pelo símbolo do clube local, e as conversas sobre os Leões da Serra fazem parte do dia-a-dia.

Conhecido por Espanhol, marca presença em todos os jogos do SC Covilhã e é presença assídua na Luz. Fervoroso benfiquista, militou no atletismo do clube da Luz quando tinha idade de júnior. A paixão pelo clube ficou, juntando-a à grande simpatia com o clube local. No sábado, tal como para tantos outros covilhanenses e benfiquistas, será um jogo especial, de grande emoção.

Os dois cartões de sócio estarão em muitas carteiras presentes nas bancadas do Complexo Desportivo, com coração decerto dividido. Garantias? Apenas a de que haverá verdadeira festa da Taça na Cidade 5 Estrelas!

Os dias em que a Covilhã despertou bem cedo

A primeira fase de venda de bilhetes decorreu na passada sexta-feira, exclusiva aos três mil sócios pagantes do SC Covilhã. Houve quem não quisesse esperar mais, e prontificou-se na deslocação ao Silo Auto do clube, logo antes de chegar ao trabalho. As primeiras pessoas começaram a chegar por volta das 8h da manhã, com abertura das bilheteiras agendada paras as 9h.

Nico Gaitán

Nico Gaitán foi o autor do golo que deu a vitória ao SL Benfica na final do troféu do qual inicia agora a defesa

No entanto, o maior reflexo de entusiasmo surgiu já no decorrer da semana do jogo, quando a bilheteira abriu para público em geral. Na terça-feira, às 7h da manhã, já havia gente na linha da frente, para garantir os respetivos ingressos. Faltavam duas horas e meia para a abertura da bilheteira. Ao longo da manhã, a fila foi engrossando, não dando resposta a todas as solicitações. Pelas 11:30h, todos os bilhetes destinados a venda na data descrita, estavam esgotados.

A procura intensificou-se na manhã de quarta-feira, junto à Casa do Benfica da Covilhã, na parte alta da cidade. Segundo os responsáveis, às 5h da manhã, quatro horas antes da abertura da casa, já havia gente à porta. Não será de estranhar, por isso, que os escassos 50 bilhetes tenham esgotado em 15 minutos.

27 anos é muito tempo. E da última vez que a equipa principal do Sport Lisboa e Benfica visitou a Covilhã, Nico Gaitán, autor do golo que deu a vitória aos encarnados na final da Taça do ano passado, ainda nem sequer era nascido… Um muito aguardado regresso a passado, na Beira Interior.

Boas Apostas!