Primeiro que tudo, é preciso descodificar as ideias. Os jogos da pré-época são para se fazer experiências, ensaiar soluções e resolver os problemas que se detectem. Mas os jogos da pré-época também são para se fazer algum dinheiro (as grandes equipas), cimentar prestígio e galvanizar os adeptos para uma época em que, por vezes, será o tudo ou nada.

É muitas vezes na pré-época que as equipas arranjam embalo para as respectivas ligas. É na pré-época que ganham vontade de vencer e criam os mecanismos que os levam à vitória. Mas também é na pré-época que se criam vícios que levam ao descalabro. É na pré-época que se lançam as bases para um ano de estratégia, de confronto, de trajecto que se quer vitorioso.

Mas a pré-época não define nada. Nem o campeão, nem o derrotado. Mas mostra as ideias. A criação do fio de jogo. Mostra a equipa que se tem. O que faltará. Se se vai no bom caminho. Se se deve arrepiar trajecto.

Algumas equipas começam a pré-época mais cedo. Porque são obrigadas a começar, também, as suas épocas desportivas mais cedo. São os jogos de qualificação para a Liga dos Campeões, para a Liga Europa, as Supertaças, os primeiros jogos eliminatórios das Taças Nacionais e das Taças das Ligas.

Outras equipas começam mais tarde, em virtude das épocas desportivas começarem, também, um pouco mais tarde. Outras ainda começam as pré-épocas mais cedo mas sem grande parte da equipa que está ainda de férias (acabaram as épocas mais tarde, fosse com a Liga dos Campeões, a Liga Europa, o Campeonato do Mundo, o Campeonato da Europa, os Jogos Olímpicos e os inúmeros torneios juvenis), ou porque os plantéis não estão ainda fechados porque não completos, porque os jogadores pretendidos são caros e há que chegar a acordos, seja porque se espera um empréstimo, ou seja ainda porque há que inventar dinheiro para se ir buscar o que é necessário, por vezes, como chegou a dizer o internacional benfiquista, Toni, com um saco de rebuçados.

Ezequiel Garay

Ezequiel Garay foi vendido a preço de saldo para a fria Rússia

Mas depois da descodificação, ainda há factores que contam na pré-época das equipas: o que se vislumbra da construção da equipa, ou da sua desconstrução, a mais valia do treinador e o que os novos reforços vêm acrescentar ao já existente.

E é aqui que as coisas começam a ficar azedas, nuns casos, ou adocicadas, noutros casos.

Quando as pré-épocas são recheadas de sucessos, os adeptos tendem a ver nisso a grandeza do clube, do treinador e dos jogadores. E esperam a lógica continuidade além pré-época, ou seja, liga recheada de sucessos (o que para uns significa o Campeonato, para outros a Europa e ainda, para a grande maioria, a manutenção). Quando se dá o contrário, os adeptos entram em depressão, não acreditando conseguir sair do ritmo negativo entretanto adquirido. E há adeptos que perdem as esperanças ainda antes das ligas começarem, como outros há que ainda nem começaram e já se julgam campeões.

E todos os anos é assim. E sempre assim será.

Este ano não é excepção.

Mas na cabeça de qualquer adepto de futebol, e não só benfiquista, a pergunta: porque raio o Benfica vendeu, a preço de saldo, Ezequiel Garay, um elemento fulcral da sua defesa, para o Zenit, de um campeonato não muito interessante como o russo? Pergunta essa que, por enquanto, não terá resposta, embora surjam algumas ideias.

De todas as formas…

O Sporting CP, que mudou de treinador, mas manteve mais ou menos a equipa do ano passado, começou por vencer os jogos da pré-época e os adeptos já se imaginavam a lutar pelo título, e a chegar a Maio de 2015 e conquistá-lo. Mas bastou uma única derrota, com a equipa mais difícil que defrontaram na pré-época, o Twente, por 2 a 0, para colocarem os pés no chão. Ainda há muito trabalho pela frente para fazer.

O FC Porto, que se habituou a ganhar tudo, perdendo, ocasionalmente, nos últimos anos, mudou de treinador e praticamente de equipa. Ainda anda à procura do seu fio de jogo mas, com a apresentação da equipa aos sócios e um empate a zero com a equipa do Saint Étienne, os adeptos já começaram a assobiar ao treinador, à equipa e, quem sabe, também à estrutura dirigente que os trouxe para aqui. Em ano de muitas transformações, está em cima dos ombros de Lopetegui a responsabilidade de recuperar a hegemonia.

O SL Benfica, que manteve o treinador, mas mudou quase toda a equipa, perdendo quase todos os jogadores chave da vitória conseguida o ano passado, está numa espiral de derrotas das quais não se vislumbra o fim. Começou com uma magra vitória sobre o Estoril-Praia, mas de então até hoje, nunca mais o Benfica saboreou uma vitória. E os adeptos já não esperam milagres. E já admitem que o ano que passou não se irá repetir. E ainda à dois meses ocupavam a Rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, a comemorar as vitórias. De campeão a derrotado à velocidade da luz.

O que se passa então com o SL Benfica?

O Problema das Revoluções

Revolução, entre outros significados, quer dizer reforma, transformação ou mudança completa. Ou seja, revolução é retirar o que está e colocar algo de novo. Na maior parte da vezes é o que se pretende, principalmente quando o que está, está ultrapassado, gasto, não funcional. Mas por vezes, as revoluções não são o tão propagado mal necessário. Principalmente porque, as revoluções, caracterizam-se por não deixar pedra-sobre-pedra. E quando o assunto é futebol, a revolução pode não ser bem compreendida, nem muito bem recebida.

Ponto assente: o SL Benfica está a viver uma revolução.

Jorge Jesus

Jorge Jesus tem como missão reconstruir uma equipa que foi desfeita

A única constante do clube da Luz é o treinador. O grosso da equipa que no ano passado venceu a Liga, a Taça da Liga e a Taça de Portugal e chegou à final da Liga Europa foi vendido. A equipa campeã foi desmantelada.

Nesta pré-época, as coisas estão azedas para os adeptos benfiquistas. Não tanto pela ausência de vitórias (que já por si é muito importante e desmoralizante), mas pelos jogos que têm perdido e que o treinador tenta desvalorizar, mas que o adepto não consegue perceber. E maior é o espanto que, para um treinador que está à seis anos no clube, ainda não o tenha percebido.

É possível que a Taça de Honra da AF de Lisboa não interesse a ninguém, principalmente a quem se lance a conquistas muito mais interessantes e intensas, mas o que estava ali em jogo, não era a conquista a Taça de Honra, mas sim a vitória sobre o principal adversário do Benfica, o Sporting CP. É isso que os adeptos sentem que não é entendido.

Depois foi a derrota com o Ajax, na Luz, na Eusebio’s Cup. Mais uma vez com Jorge Jesus a desvalorizar o resultado, que era mais um outro jogo de treino, que a equipa estaria diferente na Supertaça, com o Rio Ave, e no início de temporada. Será que, mais uma vez, Jorge Jesus não entendeu a importância deste troféu? Não foi por causa de Eusébio que se ganhou tudo o ano passado? Não foi por causa de Eusébio que os jogadores deram o que tinham e não tinham para conseguirem as conquistas que conseguiram no ano passado? E agora, o Eusébio não merece que o seu jogo seja mais que um mero jogo de treino? Isto é o que pensa o adepto benfiquista. Que está, já assim, duplamente deprimido, por perder jogos, contra o seu rival e o de homenagem ao seu maior símbolo, e por sentirem que não vão ter equipa para atacar 2014-2015.

Mas a memória é curta. E bastará umas quantas vitórias agora já a seguir, na Valais Cup, na Emirates Cup e na Supertaça, para logo tudo o que é mau se esquecer e ficarem como os adeptos do Sporting CP com o início da pré-época. Que tudo está muito bem, maravilhoso, e que o título será do Benfica outra vez. Pois.

Voltemos de novo atrás. O SL Benfica vive hoje uma revolução do plantel, como já viveu no passado e com os resultados nefastos que se conhecem. Também se acredita que Jorge Jesus é o treinador certo para liderar essa revolução encarnada. Mas todas as revoluções necessitam de tempo. Tempo é coisa que o Benfica não tem. Nem Jesus terá. Nem os adeptos o darão.

Mas o SL Benfica e Jorge Jesus não estarão sós nesta caminhada. O FC Porto e Lopetegui estão também a viver uma revolução. Não tão sangrenta quanto a do Benfica (os jogadores importantes que saem são menos), mas é um novo treinador que vem tentar implantar um novo esquema de jogo a uma equipa quase nova. Mais uma vez, é preciso tempo. Tempo que o Porto não tem. Nem Lopetegui terá. Nem os adeptos o darão.

Mas, e também qualquer adepto o dirá, a esperança é sempre a última a morrer. O que hoje parece mau, amanhã poderá parecer radioso. Basta que mudem os resultados.

Assim, esquecidos que foram derrotados pelo Sporting numa desprezada Taça de Honra, esquecidos que perderam, em casa, com o Ajax, o troféu de homenagem ao seu melhor jogador e embaixador, os benfiquistas são como os gauleses de Asterix: depois da tempestade vem sempre a bonança. Depois das derrotas vem sempre a vitória, ou como dizia o revolucionário sul-americano, de derrota em derrota até à vitória final.

E Agora, a Suíça

Anderson Talisca

Anderson Talisca tem sida a melhor das surpresas benfiquistas nesta pré-época

Para já, o horizonte traz ao SL Benfica a Taça Valais, na Suíça. Os encarnados vão defrontar o Sion e o Athletic Bilbao. Basta ganharem esta taça para voltarem ao caminho do título, a serem uma grande equipa e Jorge Jesus o melhor treinador português (depois de José Mourinho, é claro).

Jorge Jesus escolheu estes jogadores para irem com ele à Suíça:

Guarda-redes – Artur Moraes, Bruno Varela, Paulo Lopes;

Defesas – Maxi Pereira, Benito, Eliseu, César, Luís Felipe, Sidnei e João Cancelo;

Médios – Lindelöf, Salvio, Rúben Amorim, Bernardo Silva, João Teixeira, André Almeida, Ola John, Candeias, Ivan Cavaleiro, Talisca, Victor Andrade;

Avançados – Nico Gaitán, Cardozo, Nélson Oliveira, Lima, Jara, Bebé e Derley.

Os adeptos aguardam pelo brilhantismo. Pelo estancamento da sangria. Pela vitória.

O SL Benfica, como está mais do que visto, não é uma equipa qualquer. E se se adaptou a perder, durante muitos anos para o seu principal adversário, o FC Porto, também se adapta muito depressa a vencer. E agora, depois da época passada, a exigência dos adeptos é enorme. E Jorge Jesus temd e a compreender. E dar-lhe forma. E resposta.

Boas Apostas!