No fundo, a Liga BBVA conjuga duas competições distintas. É como se Real Madrid e Barcelona tivessem lá o seu próprio campeonato, em que disputam o título, e depois viessem todos os outros. Para dar uma ideia do domínio dos dois emblemas rivais, os Merengues foram 32 vezes campeões, os Culés 22. Há cinco anos que o Real não sofria duas derrotas consecutivas para a Liga. Se tivermos em conta os vencedores desde o início dos anos 90 a hegemonia mantém-se, 8 títulos para o Madrid, 12 para o Barcelona. Nestas duas décadas e meia as exceções que confirmam a regra foram o Atlético de Madrid, Deportivo da Corunha (cada um com um título, em 95/96 e 99/00 respetivamente) e o Valência (01/02 e 03/04).
Por isso é tão significativa, e bem-vinda, a presença dos Colchoneros no topo da classificação, com 73 pontos, cumpridas que estão 30 jornadas, mais um que os Catalães e três acima dos Merengues.

El Cholo, versão Robin dos Bosques

Simeone Diego Costa

Os dois Diegos do sucesso

O médio português Tiago, segundo capitão do Atlético, após a vitória em Granada, confidenciava que “as pessoas na rua olham para nós como se fossemos o Robin dos Bosques, somos os que lutam com os grandes e poderosos”. Tal como na alternância política, este “agora ganho eu, depois ganhas tu” também cansa. El Cholo bem pode continuar com o discurso de que “jogam jogo a jogo”, não há como fugir ao óbvio. Os Colchoneros não só são candidatos ao título como seguem na frente da corrida. E o argentino é um dos principais responsáveis. Enquanto jogador, Simeone integrou o plantel do Atlético que fez a dobradinha histórica na época de 1995/96, conquistando La Liga e a Copa de Espanha. Quinze anos mais tarde regressa ao Vicente Calderón, agora como técnico, para substituir Manzano. No espaço de um ano, conquistou a Liga Europa, frente ao Athletic de Bilbao, e a Super Taça Europeia ao Chelsea. Já em 2013 derrotou o Real Madrid na final da Taça do Rei. O 3º lugar da temporada passada foi a melhor classificação dos Colchoneros na Liga desde a conquista do único título. Já esta época, além do brilharete no campeonato, os homens de Simeone impressionaram também a Europa do Futebol. A vitória do Grupo G foi, como se diz na gíria, limpinha, sem uma derrota sequer. Invencibilidade que se estendeu nos oitavos de final da Liga dos Campeões, tendo o AC Milan sido derrotado tanto no San Siro como em Madrid.

“O sonho ninguém nos tira”

Da direção ao balneário, todos no Vicente Calderón têm consciência que lutam com dois gigantes. Não será fácil ganhar o que quer que seja mas não viram a cara ao desafio. Testemunho do Presidente Enrique Cerezo, ao programa El Larguero da Cadena Ser, “Hoje estamos a jogar como se deve, com bons jogadores, bom treinador, grandes adeptos e sobretudo indo à luta em todos os momentos. Muita coisa pode acontecer mas o sonho ninguém nos tira. E este ano temos o sonho e a confiança de que podemos fazer coisas importantes.” Tiago, em entrevista à mesma rádio, fala do que mudou nestes anos que leva em Espanha. “Vais acreditando que é possível, vais ganhando títulos e cada vez queres mais e mais. Acostumas-te a ganhar e queres fazê-lo todos os dias. Estamos onde queremos estar.” E ainda dá a tática: “somos muito mais equipa, por isso chegamos aqui. Depois temos jogadores que decidem, pode ser Diego Costa ou outros. Villa também tem feito um trabalho fenomenal pelo grupo”. Esperam-nos oito partidas até ao final do campeonato, cada uma a ser jogada como se de uma final se tratasse. O Atlético tem o calendário mais complicado dos três candidatos – Athletic, Villareal, Getafe, Elche, Valência, Málaga, Levante e Barcelona – e o único com mais jogos fora que em casa. Pelo meio ainda haverá a jornada dupla dos Quartos da Liga dos Campeões, diante dos Culés. Vai ser sofrer até ao fim mas a recompensa pode ser histórica. Até lá, como dizem em Espanha, “a disfrutar!”

Boas Apostas!