Estamos em crise. Portugal está em crise. A Europa está em crise. O Mundo… Bom, uma parte do Mundo está em crise, mas outra parte não. E é essa outra parte do Mundo que não está em crise que está a movimentar loucamente o mercado do futebol. Equipas como o Chelsea, o Manchester City, o PSG ou o Mónaco vivem tempos prósperos. O desejo é só uma vontade à espera de ser saciada. Mas é verdade que já houve tempos mais loucos. Tirando o Real Madrid, todas as outras equipas estão mais comedidas.

Mas também em Portugal, e à sua dimensão, por vezes podemo-nos esquecer que estamos num dos períodos mais complicados da nossa vida pós-revolução. As compras do FC Porto, por exemplo, levam-nos a pensar nisso. Mesmo que se saiba que foram feitas, ou poderão vir a ser feitas, óptimas vendas.

E é claro que, em ano de Campeonato do Mundo de Futebol, as coisas tenderiam a redimensionar-se. Mais alto brilharam as estrelas que conseguiram chegar ao Mundial com algum fôlego, e mais alto ainda gritou o desejo de quem quer ter os melhores, os que vão mais longe, os que aguentam mais, os que são mais goleadores.

Nisso, o Mundo não mudou assim tanto mesmo com a entrada de dinheiros frescos, da Ásia ou das Américas. O Real Madrid continua na sua saga galáctica. Nunca se cultivou tanta estrela por metro quadrado, no Santiago Barnabéu, como agora. Senão, vejamos esta linha de ataque: Cristiano Ronaldo, Gareth Bale, Karim Benzma, Ángel di Maria, Toni Kroos e James Rodríguez. Nem no céu estrelado. Mas também o Barcelona tenta a sua restruturação sem perder o norte de uma equipa vencedora que neste último ano tendeu para a vertigem e que acabou por se reflectir na prestação da selecção espanhola no Campeonato do Mundo do Brasil.

Em Espanha

Para já, e para o que isto tem de transcendente (e estamos a falar de valores que param o ar e impedem a respiração), o Real Madrid é o rei da aquisições. Começou o ano passado com a compra de Gareth Bale, por 100.000.000 €, ao Tottenham, e continuou agora com 80.000.000 € ao Mónaco, pelo colombiano James Rodriguez, 25.000.000 € ao Bayern de Munique, pelo alemão Toni Kroos e, ainda em fase de negociações, a compra do passe de Kaylor Navas, o guarda-redes da Selecção da Costa Rica no Campeonato do Mundo do Brasil, ao Levante, e do qual se desconhecem ainda os valores. Uma última notícia admite, também, as negociações do Real com o Chelsea para a compra do avançado belga Romelu Lukaku. O Real Madrid na vanguarda da qualidade, mas com bolsos sem fundo. Haja dinheiro. Tudo em nome da conquista.

Gareth Bale

100 milhões de euros foi quanto o Real pagou pela tranferência de Gareth Bale ao Tottenham

Estamos, assim, perante uma equipa extraordinária, recheada de estrelas, com tudo para ganhar todas as provas em que entrar e que irá encher os estádios. Bom, seria assim, num Mundo teoricamente ideal. Mas este não o é. E por mais galácticos que sejam os jogadores do Real Madrid, e já o são desde o final do século passado, mesmo tendo um currículo deveras impressionante, nunca tornou o Real Madrid uma equipa impossível de derrotar. Por outro lado, o seu adversário mais directo na Liga Espanhola, o Barcelona, esse sim, já passou por momentos em que era uma equipa [quase] impossível de se derrotar. Mas que não se tenham ilusões, mesmo não se falando de galácticos comprados a peso de ouro, as equipas do Barcelona são sempre, ou têm sido sempre, grandes equipas, com grandes jogadores, que foram também, a espinha dorsal de uma selecção, a espanhola, que foi Campeã do Mundo e da Europa.

Não querendo, nem podendo ficar para trás, até porque tem uma equipa para recuperar, ou mesmo reconstruir, o Barcelona também já se lançou na compra de Luis Suárez, o canibal uruguaio que a FIFA castigou depois da mediática mordida em pleno Campeonato do Mundo do Brasil, em jogo contra a Itália. Teria a sua graça se acabasse por rumar ao Inter ou ao AC Milan. Mas a graça não chega tão longe. Suárez deixa o Livepool em direcção a Barcelona, mas terá de esperar alguns meses devido ao castigo imposto pela FIFA de 4 meses afastado dos relvados, e só deve voltar aos relvados lá para perto do Natal (que aqui não é quando um homem quiser, mas é mesmo em Dezembro).

Aliás, é em Espanha que se encontram as 9 transferências mais caras de sempre do futebol Mundial. Seis delas são, como não podia deixar de ser, do Real Madrid, o galáctico clube dos galácticos. O Barcelona tem três transferências no top 10. Neymar é a compra mais cara do Barcelona, por 85.000.000 € ao Santos, mas é, no geral, a terceira mais cara, atrás de Gareth Bale e Cristiano Ronaldo, as mais caras de sempre. Mas logo atrás de Neymar, está Luis Suárez.

Só na décima posição é que se sai de Espanha, para a vizinha França, onde surge o PSG. Outro dos clube com dinheiro fresco, pronto para adquirir os desejos do seu treinador.

Em França

Ora, o PSG, um desses clubes novos-ricos, está apostado em ter a hegemonia do futebol francês e, para isso, compra a rodos, mas, geralmente, compra bem, e compra caro.

Tudo começou na época de 2012-2013, com a aquisição de nomes como Zlatan Ibrahimovic, Ezequiel Lavezzi, Thiago Mota e Lucas. E depois de, na época seguinte, ter gasto 65.000.000 € na aquisição de Edinson Cavani ao Napoles, 35.000.000 € por Marquinhos ao Roma e mais 15.000.000 € por Lucas Digne ao Lille, o PSG já adquiriu para esta época, o defesa e segundo capitão da Selecção do Brasil, David Luiz, por 65.000.000 ao Chelsea de José Mourinho.

David Luiz

David Luiz foi a mais cara aquisição de sempre do PSG

O Paris Saint-German está apostado em conquistar a França (tarefa que já está mais-ou-menos completada) e a Europa. Embora o poder ainda esteja em Espanha, e agora também na Alemanha, e já não tanto em Inglaterra nem em Itália, o PSG quer aparecer como o jóker que vai mexer com a ordem natural das coisas. Também é preciso dizer que a ordem natural das coisas só existe enquanto o for, porque a ordem natural das coisas é ganhar quem tem a melhor e a mais completa equipa e joga o melhor e o mais funcional futebol. Por isso foi natural a vitória do Barcelona, como foi natural a vitória do Bayern, como, de novo, foi natural a vitória do Real Madrid, e quem sabe se, agora, do Atlético de Madrid.

E é isto que o PSG quer parar. Chegou, talvez, a hora europeia do PSG. Pelo menos é o que pensam e desejam os seus responsáveis. Porque, em casa, estão a afastar-se do Mónaco que parece ter deitado a toalha ao chão. Ou então está a fazer bluff.

O outro clube milionário de França, o Mónaco, parece que está parado. Ou melhor, parece que já foi mais activo. O ano passado foi buscar Radamel Falcao ao Atlético de Madrid por 60.000.000 €, e James Rodríguez ao FC Porto por 45.000.000 €, que agora revendeu ao Real Madrid por quase o dobro. Economicamente, a fazer grandes negócios mas, desportivamente, a parecer deixar a corrida para o PSG. O Mónaco parece uma equipa amuada, triste, sem força anímica para combater o PSG, e isso vê-se, bastante, nas suas [não] contratações.

Em Inglaterra

Em Inglaterra também há algumas movimentações. Mas já houve tempos mais gloriosos e de maior fausto. Mesmo o Mancester City (com problemas com o fair play financeiro que lhes custou alguns milhões de euros e mais uns castigos) e o Chelsea, de José Mourinho, já viveram tempos de maior desafogo onde o querer era poder. Hoje as coisas estão bem mais calmas. Embora Mourinho continue comprador. Mas parece que acabaram as compras por atacado. Louis van Gaal ainda não agitou o Manchester United, o Arsenal continua a apostar na juventude, e o Liverpool resolveu dar uma ajuda financeira ao SL Benfica.

Lazar Markovic

Lazar Markovic foi, talvez, a única boa venda do SL Benfica, com 25 milhões de euros para o Liverpool

O Chelsea começou por vender David Luiz para o PSG, e depois foi comprar Cesc Fábregas ao Barcelona, clube onde o jogador nunca rendeu o que poderia ter rendido, por 33.000.000 €. Mas o Chelsea também foi ao Atlético de Madrid pagar mais 60.000.000 a 65.000.000 € pelo passe de Diego Costa e Filipe Luis. José Mourinho já disse que este era o ano para ganhar competições. E está a preparar-se para isso, tendo também mandado regressar o guarda-redes belga Thibaut Courtois, com o qual conta para titular esta época. E com o que se está a passar nos outro clubes britânicos, é bem possível que seja mesmo o ano de José Mourinho. Ou não. Porque em Inglaterra as coisas são realmente diferentes do resto das grandes ligas.

O Manchester City, e ao contrário do habitual, tem estado bastante calmo. Pagou 15.000.000 € por Fernando ao FC Porto, e fala-se também da possível compra de Mangala por cerca de 40.000.000 €, mas até agora, nada está confirmado. O Manchester City também foi ao Arsenal buscar Bacary Sagna que veio a custo zero, por estar em final de contracto. Por isso, o City está muito calmo. Mas continua com grande equipa.

Este ano também o Liverpool veio a Portugal fazer uma avultada compra. Veio ao SL Benfica buscar Lazar Markovic por 25.000.000 €. É claro que só metade, ou seja 12.500.000 € entraram nos cofres da Luz, pois só metade do passe era do Benfica. E os red devils também despenderam qualquer coisa como 12.000.000 € pelo médio alemão Emre Can.

As coisas estão, assim, um pouco tranquilas na velha Albion.

O Caso Português

Em Portugal vive-se a miséria do costume. Ou talvez um pouco mais do que o habitual (para uns), e um pouco menos (para outros).

O SL Benfica está, parece, em desespero. Está a vender por atacado, alguns jogadores mesmo, muito abaixo do seu real valor (Garay, por exemplo), desfazendo uma equipa que tinha sido campeão e a comprar, também por atacado, nomes soltos, sem grandes histórias, à espera para serem formados pelas mãos mágicas de Jorge Jesus, mas sem que comprem algum jogador de grande qualidade ao qual já habituaram os sócios ao longos dos últimos anos. Talvez a melhor venda tenha sido Markovic para o Liverpool. Mas ainda faltam sair Gaitán e Enzo Pérez. No Mundo e numa época normal, estes jogadores, até para sair, teriam de se pagos a peso de ouro. Parece já não ser esse o caso. E hoje em dia, ao Benfica, a ideia é desfazer-se dos anéis antes de ficar sem os dedos. Repete-se: parece.

Cristian Tello

2 milhões de euros foi o valor do empréstimo de Cristian Tello do Barcelona para o FC Porto

Quanto ao FC Porto, mostra ser o clube mais rico da paróquia. Fez uma boa venda com Fernando para o Manchester City, mas a grande venda deste Verão espera que venha a ser a venda de Mangala para o mesmo clube. Alís, só assim se percebe a senha compradora do clube do norte que já pagou 11.000.000 € por 60% do passe do espanhol Adrián Lopez, mais 7.700.000 € pelo defesa Bruno Martins Indi e 6.500.000 € pelo argelino Brahimi, ao Granada. Mas a este valores ainda temos de acrescentar os 2.000.000 pelo empréstimo de Cristian Tello ao Barcelona. E as compras, assim como as vendas, é verdade, não estão fechadas.

O Sporting CP também tem feito muitas aquisições, mas quase todas a custo zero ou a custo muito baixo. Tem no entanto alguns, muito interessantes activos que pode vender, ou não: Marcos Rojo, William Carvalho e Islam Slimani. Mas espera-se que o desejo desportivo se irá sobrepor ao desejo financeiro.