Na generalidade dos casos, uma equipa não se analisa exclusivamente pela soma das qualidades técnico-táticas dos seus elementos. Daí falar-se do que vale uma equipa “no papel” e da forma como cada conjunto transpõe essas qualidades para o terreno de jogo. O AS Monaco transformou-se num estudo de caso quando, durante este verão, a sua administração decidiu mudar de política desportiva, deixando de parte o objetivo de lutar pelo título na Ligue 1 para se transformar num clube que aposta em jovens jogadores e os tenta rentabilizar financeiramente.

Uma equipa sem líderes

É possível construir uma equipa sem líderes? Não, não é. Na temporada passada, o AS Monaco foi empurrado para uma situação de mudança radical, de equipa da Ligue 2 para candidato ao título na Ligue 1, tendo-se apoiado na ambição de um grupo de jogadores para fazer a diferença. É óbvio que uma contratação como a de Falcao transforma totalmente os níveis de talento disponíveis na equipa, mas foi mais da criatividade de James Rodríguez e da combatividade de Riviére que o Monaco retirou a sua liderança. Assim, apesar de ter no plantel alguns nomes com maior capacidade para “mandar” no balneário, como Eric Abidal, a equipa confiava na ambição para capitanear o seu futuro.

Um treinador no labirinto

Jardim muito longe do Paraíso...

Jardim muito longe do Paraíso…

Ora, foi a ambição o primeiro a abandonar o barco na mudança de rumo ditada pela administração. As vendas de James Rodríguez, Falcao e Rivière, conjugadas com a saída de Abidal e a ausência de dinheiro para reforçar o plantel, deixaram o Monaco entregue à sua sorte. Leonardo Jardim chegou para agarrar a oportunidade de poder lutar pelo título e viu-se sem jogadores para concorrer com o Paris SG e sem ideias para estar ao nível do Marselha de Marcelo Bielsa. Durante as primeiras semanas da temporada, chegou a temer-se o pior, com a equipa a não revelar a mínima capacidade de reagir perante a adversidade. A experiência de jogadores como Ricardo Carvalho, Toulalan, João Moutinho ou Berbatov parecia pouco adiantar, até porque nenhum deles aparenta ter a capacidade de liderar o balneário. De qualquer maneira, seria complicado para um jogador ou até para o treinador aguentar a transformação de personalidade operada pelo Presidente do clube.

Procurar o conforto

O AS Monaco acabou por procurar o conforto e entregar-se a um modo de sobrevivência. Nos jogos mais exigentes, os monegascos revelam a sua verdadeira face, uma equipa lutadora, com muita capacidade de se organizar, com jogadores que, num sistema de recuo das suas linhas e agrupamento, beneficia do talento dos seus principais nomes. Sem um líder forte, a equipa continua a procurar na ambição dos mais jovens, como Ferreira Carrasco, Martial ou Bernardo Silva, a resposta para parte das suas dificuldades. O problema do Monaco é que apenas cerca de 30% dos seus jogos são disputados contra equipas mais fortes. No confronto da Ligue 1, boa parte dos adversários olham para o Monaco como o adversário que pode ser vencido e isso explica a baixa classificação da equipa na tabela.

Inventar a solução

Leonardo Jardim tem no Monaco o maior teste à sua carreira. Habituado a estar em projetos que vinham de baixo, fosse de equipas que ambicionavam subidas de divisão, fosse de equipas que esperavam regressar a um nível que tinham abandonado, o madeirense vê-se pela primeira vez na situação oposta: como gerir uma situação de crise, de uma equipa que vê o seu valor real decrescer de uma temporada para a outra. A busca pelo conforto poderá ajudá-lo a manter o seu emprego durante mais algumas semanas, mas no longo prazo não servirá os objetivos de aumentar o valor de mercado dos seus jogadores. A mudança de personalidade do clube obriga, assim, à mudança de personalidade do treinador, um trabalho quase impossível se não partir dele próprio a consciência desse necessidade. Está muito para lá do que é estritamente futebol o problema do AS Monaco neste momento.

Boas Apostas!