Na liga mais competitiva e mediática do planeta não há só histórias de sucesso e redenção. Há também más decisões e fracassos. Já todos passamos por isso, em maior ou menor escala. Há compras de que nos arrependemos no momento em que as fazemos. Outras levam mais tempo a desiludir, a perceber que não nos assentam bem, ou, simplesmente, que gastámos num impulso. Por isso é sempre bom guardar o recibo. Tudo isso acontece também no futebol, e muitas vezes técnicos e diretores desportivos desejaram poder simplesmente devolver o artigo à procedência. Infelizmente para eles este mercado não permite devoluções.

O herdeiro

Quais foram as maiores desilusões da temporada que já vai longa na Liga Inglesa? Vou aqui clarificar o que entendo por aquilo a que os ingleses chamam “flop” – uma contratação rodeada de grandes expectativas, com grande investimento e que, inesperadamente, fica muito aquém do esperado. O primeiro lugar destacado vai, sem sombra de dúvidas, para David Moyes. O melhor que os seus defensores conseguem fazer é atribuir responsabilidades a Alex Ferguson e pedir tempo. Alguém que chega com a bênção de Sir Alex, que é tratado como “o Escolhido”, “o Herdeiro”, e desilude a toda a linha tem mesmo que liderar o ranking. A sete jogos do fim do campeonato o Manchester United é sétimo, com 51 pontos. É de longe o pior resultado alcançado desde que a divisão de topo inglesa tem o formato da Premier League, ou seja, desde 1992 os Red Devils nunca tinham ficado abaixo do 3º posto.

O matador sem pontaria

Soldado Spurs

Sim, foi ao lado.

O Tottenham perdeu a cabeça no mercado de verão. Com Paulinho, Lamela e Soldado, o clube londrino bateu recordes consecutivos de gastos com transferências. Paulinho demorou um pouco mas lá conseguiu afirmar-se, Érik Lamela tem como atenuantes a idade e a lesão prolongada. Roberto Soldado, não tem desculpas. O avançado de 28 anos, que já passou pelos Merengues, Osasuna, Getafe e Valência, chegou a White Hart Lane rotulado de matador. Foi por isso que os Spurs pagaram os 30 milhões de euros da cláusula de rescisão. Com os esquemas táticos de Villas-Boas, Roberto Soldado parecia um peixe fora de água, isolado e sem ligação com o resto da equipa. Quando Adebayor foi reintroduzido no onze a prestação do espanhol melhorou ligeiramente mas o mal estava feito. As crises de confiança são problemáticas para qualquer jogador, mas para um finalizador são letais. Na Liga, Soldado marcou apenas 6 golos em 25 presenças, mais 7 marcados nas competições europeias, incluindo os jogos da pré-eliminatória. Francamente pouco para o tanto que se gastou. O seu valor de mercado baixou 5 milhões de euros neste último ano.

A peça que não encaixa

O terceiro lugar vai para o Belga de cabeleira “afro”. Marouane Fellaini pode alegar que é apenas um pormenor na panorâmica geral da temporada desastrosa do United. A verdade é que Moyes fez tudo para garantir a transferência do seu jogador talismã de Goodison Park para Old Trafford. Como acontece quase sempre nestes casos, o Everton fez-se rogado e o United teve que abrir os cordões à bolsa. O que não se percebe é a insistência do Escocês. Não se gasta mais de 30 milhões num jogador sem se ter uma ideia muito clara do que quer dele. E, como se tornou evidente, Moyes não sabe como nem onde encaixar Fellaini. É verdade que perdeu dois meses por lesões – costas e pulso – entre Dezembro e Fevereiro. Mas 1 golo e 1 assistência é muito pouco rendimento para o investimento. Mais uma vez, a confusão tática do novo Manager dos Red Devils não tem ajudado a que Fellaini encontre o seu lugar e estabilize. A verdade é que o Belga não conseguiu causar impacto em nenhum dos 21 jogos em que alinhou pelo United.

Entrada de leão, saída de canário

Comparado com os anteriores, o último da lista é quase uma piada. Ricky von Wolfswinkel veio do Sporting Clube de Portugal por 10 milhões de euros. Nunca o Norwich tinha gasto tanto num jogador. O calcanhar de Aquiles dos Canários na temporada passada tinha sido a finalização e o clube decidiu investir forte para resolver o problema. O tiro saiu pela culatra. O Holandês teve entrada de Leão, mas o sucesso inaugural foi ilusório. Ao fim de 31 jornadas ele marcou exatamente 1 golo, curiosamente no jogo inaugural frente ao Everton. O que perfaz 1 tento, 2 assistências e 10 remates à baliza em 23 jogos com a camisola do Norwich. Deve ser por isso que o passe já não vale mais de 7,5 milhões €.

Boas Apostas!