Coisas estranhas se passam no Mundo.

Estamos assim, um pouco distraídos e, de repente, saído do nada, uma enorme estranheza se expande à nossa frente. Parece o clássico da banda desenhada: “É um pássaro? É um avião? Não, é o Super-Homem”. E então, é o quê? É a crise na Europa? É uma nova Guerra Fria? Não, é a FIFA. Mas a bem de ver, a FIFA encerra dentro de si, tudo isso e mais alguma coisa.

Mas, há novidades? Bem, não e sim.

Não porque nada é novo. Sim, porque há desenvolvimentos, no mais do mesmo.

O que aconteceu é que a FIFA pediu um inquérito às opções pela Rússia e pelo Catar como organizadores dos Campeonatos do Mundo de 2018 e 2022, respectivamente. E quando toda a gente estava à espera de uma mea culpa por parte da FIFA, ao assumir que houvera má gestão dos processos de candidatura e que estes teriam, com alguma corrupção à mistura, sido adulterados em nome dos valores financeiros em jogo, a FIFA veio dizer que, afinal, não ficou provado nada de anormal e que tudo correu conforme esperado. Nada que não se esperasse por parte da organização do futebol Mundial. Mas o que veio abalar o sistema foi a denúncia de um dos relatores que garantia que o relatório provava o contrário.

Michael Garcia, um dos relatores e responsável pela investigação das duas candidaturas à organização dos Mundiais, veio a público criticar o resumo feito pela Comissão de Ética da FIFA, que, após a recepção do relatório, veio afirmar que não tinham sido detectadas condutas reprováveis, suficientemente graves para que o processo de candidatura tivesse de ser repetido. Ora, Michael Garcia garante ser abusivo que a FIFA retire essas ilações de um relatório que aponta, precisamente, para o seu oposto.

A FIFA É Dona da Bola

Michael Garcia

Michael Garcia, responsável pela investigação das candidaturas à organização dos Mundiais de 2018 e 2022, afirmou que o relatório aponta outra direcção

Mas claro que, a isso, a FIFA fez ouvidos moucos. Que é o que faz normalmente quando algo não lhe convém, ou lhe desagrada, ou, ainda, poderá vir a colocar em causa a hegemonia da organização. A FIFA assume-se como um Estado dentro dos outros Estados, pairando sobre eles e adulterando-lhes as leis a seu belo prazer, consciente do poder da sua marca e da carga económica que esta alberga.

A FIFA só se dispõe a mudar, se assim for obrigada, e em questões de último recurso. Por exemplo, o que se passou com a organização do CAN-2015 que Marrocos se negou a fazer nestas datas (por questões de segurança ou, também se diz, políticas), foi prontamente passado para a Guiné Equatorial, pelo CAF, assim que o país se ofereceu para o organizar, independentemente das condições de segurança (o Ébola não está, ainda, controlado), e independentemente de ser uma ditadura feroz – aliás, não acabou por entrar como membro de pleno direito na CPLP? O dinheiro como valor mais alto da humanidade. Não interessa como ele vem, desde que venha.

Ora, dinheiro é coisa que parece que não falta para os lados da Rússia e do Catar. Nada melhor para garantir que as organizações dos Mundial se mantenham como previsto porque, obviamente, não foram usados métodos menos legais para a conquista dos votos. Mas atenção, Fabio Capello garante estar com salários em atraso, e a Federação Russa já fez saber que está com problemas de liquidez para cumprir com as suas obrigações financeiras. À atenção da FIFA: tenham cuidado, que afinal o cofre pode estar vazio.

David Bernstein

David Bernstein, antigo dirigente da Federação Inglesa de Futebol, apelou ao boicote ao Mundial na Rússia em 2018

Mas enquanto as coisas andam assim, neste marejar que, ora vai, ora vem, consoante o homem do leme, eis que surge David Bernstein, ex-director da Federação Inglesa de Futebol, a apelar a um boicote, das várias federações europeias, ao Mundial de 2018, na Rússia, à luz dos, afinal, polémicos processos de atribuição das organizações da próxima prova e da de 2022, no Catar.

Em entrevista à BBC, David Bernstein disse que «se estivesse agora na federação, faria tudo o que pudesse para encorajar outros países na UEFA – e alguns, certamente, estariam do nosso lado, outros talvez não – a tomar esta atitude. É preciso parar de falar e começar a agir». Mas na mesma entrevista, Bernstein também afirmou ser muito difícil conseguir forçar a FIFA, e o seu presidente, Joseph Blatter, a voltarem atrás. haverão muito interesses por detrás destas organizações, com muito dinheiro envolvido. E isto não foi dito por um dirigente de um país pequeno e periférico, mas por um ex-dirigente de um país importante no Mundo do futebol, país esse, onde, supostamente, tudo começou.

Mas David Bernstein não está sozinho neste zurzir à FIFA. Também no último fim-de-semana, Reinhard Rauball, presidente da Liga Alemã de Futebol, disse que a UEFA poderia e deveria deixar a FIFA, caso não fosse publicado a versão integral do relatório que a FIFA garante não encontrar anomalias nos processos, mas que Michael Garcia, um dos relatores, garante que não é isso que lá está escrito.

A dificuldade, já se vê, é gigantesca. A FIFA é a dona da bola. Mas já há movimentações. E já há quem queira afrontar a FIFA.

A Nova Guerra Fria

De qualquer forma, mesmo que a FIFA grite aos quatro ventos que o relatório iliba o processo de escolha de Rússia e Catar para as organizações dos Campeonatos do Mundo de 2018 e 2022, pode dizer-se que ainda agora vai a procissão no adro.

Caças Portugueses

De volta à Guerra Fria? Depois do episódio dos submarinos na costa sueca, os aviões no espaço aéreo internacional sob jurisdição portuguesa

É que se por questões económicas a escolha da FIFA está tomada, por questões políticas tudo pode voltar à estaca zero.

Aquilo que parece ser um renascimento da Guerra Fria, com os submarinos russos nas costas da Suécia, ou os aviões russos no espaço aéreo internacional sob jurisdição de Portugal. Este esticar do peito da grande Mãe Rússia pode jogar contra si própria. É que a Europa é o garante de bons Campeonatos do Mundo. Sem selecção como as da Alemanha, Holanda, Portugal, Itália, Inglaterra ou França, o Campeonato do Mundo não será o mesmo, e diminuirá o peso russo no Mundo.

Se a FIFA tem poder para garantir os Mundiais onde bem quiser, a Europa e uma parte do Mundo também podem forçar à guetização para onde a Rússia está a querer fugir. Ao mostrar força contra a Europa e, especialmente, os Estados Unidos, a Rússia está também a afastar-se daquilo que, afinal, deveria ligá-los.

A Mãe Rússia poderia pensar nos boicotados Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980, ainda era União Soviética.

Ou será que tudo não passa de um esquema para a Rússia, finalmente, e sem os principais candidatos, vencer um Campeonato do Mundo?

Boas Apostas!