André Gomes é um atleta fora do comum. Em tudo. Foge por inteiro ao estereótipo habitualmente concebido relativamente ao jogador de futebol. Não apresenta excentricidades, não tem tatuagens, não usa brincos, e não exibe um penteado alternativo. Dentro de campo, assume também um carácter peculiar. Tem um estilo muito próprio para as funções que desempenha e as (talvez falsas) questões relacionadas com a sua intensidade estão insistentemente na ordem do dia quando se realizam abordagens ao seu perfil.

Natural de Grijó, iniciou formação pelo norte do país.

Começou no FC Porto, seguiu para o bairro da Pasteleira e, posteriormente, representou o Boavista. Cumprindo o desejo do pai, benfiquista, tornou-se jogador do Sport Lisboa e Benfica no seu último ano de júnior, clube no qual faria a transição para o futebol sénior. Foi um dos protagonistas no ressurgimento da formação B encarnada e, a par de Miguel Rosa, era tido em grande conta pelo terceiro anel da Luz.

Entrou a pouco e pouco nos planos de Jorge Jesus depois de uma estreia com direito a golo em Freamunde, mas nunca “pegou de estaca”. Algo normal atendendo à tenra idade, ao facto de viver um período de adaptação e, mais que tudo isso, estar inserido numa realidade de elevada competitividade em termos internos. O progresso a nível individual foi notório. André fez-se muito mais jogador, mas não perdeu identidade. Aquela identidade tão única, que nos faz induzir que, no seu jogo, intensidade é quase que uma falsa questão.

Em Janeiro, Peter Lim adquiriu os seus direitos económicos por 15 milhões de euros. A situação conheceu opiniões divergentes por parte da massa adepta, e se houve quem muito criticasse o timing da venda, há um ponto praticamente consensual: em Janeiro da época 2013/14, o valor pago pelo português excedia a sua cotação no momento. No final da época, talvez a situação fosse algo diferente, até pela maior utilização que conheceu em virtude das lesões sofridas pelos colegas de equipa.

Certo é que rumou a Valência e, sob orientação de Nuno Espírito Santo, tem dado nas vistas com a camisola ché.

André Gomes no Valencia CF

Ao transferir-se para o Valencia CF, André Gomes deu o passo certo para se afirmar como jogador de excepção

Retomando a abordagem ao seu perfil dentro das quatro linhas, falar de André Gomes é falar de um jogador capaz de deliciar uma plateia… a espaços. Tem lampejos geniais, apresenta muito bons argumentos do ponto de vista técnico, e possui bom toque de bola. No entanto, juntamente com o talento indiscutível que até lhe valeu a (inevitável) comparação a Rui Costa, surgem alguns pontos que geram alguma relutância na hora de falar sobre si.

Não é um médio que se possa assumir como o motor de uma equipa, nem se deve esperar que seja ele a definir os ritmos de jogo. Também não exibe, para já, dinâmicas ou agressividade para tal. Questões intimamente ligadas à eficiência – tem progredido a este nível – e à predisposição que André apresenta em campo para o trabalho sem bola, por exemplo.

Para o adepto, é muito mais fácil gostar, por exemplo, do antigo colega de equipa, Enzo Pérez pela envolvência que o argentino coloca no jogo. Por ser um jogador intenso por natureza. O jovem de 21 anos é diferente. É um jogador bem mais low profile. Sabendo que não é especialmente forte em termos de choque, é arguto na forma como protege a posse e tenta evitá-lo. Em termos de reação à perda de bola e recuperação defensiva, também não exibe grande preocupação, mas tem melhorado. São situações que, diga-se em abono da verdade, fazem parte do seu amadurecimento. Decerto se aperceberá da importância deste tipo de processos e também a relevância do seu papel nos diferentes níveis.

Recorrendo a outros capítulos, note-se que agora, sempre que pega no jogo numa zona mais recuada, exibe maior preocupação em entregar jogável da forma mais célere possível, evitando sair a jogar e arriscar perder a posse. Evoluiu também a nível da definição no último terço.

A ausência de velocidade no seu estilo leva o adepto à impaciência imediata. Mas André dá seguimento ao jogo. Em Espanha tem melhorado significativamente a esse nível, tem-se revelado mais perspicaz na hora de libertar a bola, embora não deslumbre pela rapidez de execução. Como um dia Pablo Aimar referiu numa das primeiras entrevistas em Portugal, “a sociedade está impaciente e isso reflete-se no futebol. Se um jogador guarda a bola para si durante uns segundos, de imediato ouve reclamações da bancada”.

Mas o que é que André tem? É um jogador diferente, subtil, apaixonante, porque nos convida a um exercício de memória para relembrar antigos craques através dos momentos de fino recorte técnico que protagoniza. Tem magia nos pés, e é capaz de levar a cabo momentos que ficam imortalizados na memória do adepto, como na Luz, frente ao FC Porto, ou no Mestalla, diante do Atlético.

Final da Liga Europa

Foi um dos jogadores mais criticados após a final da Liga Europa, frente ao Sevilha.

André Gomes no SL Benfica

Foi no SL Benfica que André Gomes cresceu e deu nas vistas

Teceram-se inúmeras considerações negativas. Sem querer fazer papel de advogado de defesa, há alguns aspetos a considerar que devemos ter em conta quando abordamos a prestação de André nesse jogo.

Estávamos perante um jovem de 21 anos, titular numa final europeia ao serviço de um Benfica altamente desfalcado. Sem o “motor” Enzo Pérez e, por isso, obrigado a jogar algo fora da sua área de conforto, muito menos resguardado. Cometeu erros infantis como perdas de bola em zonas proibidas, e por vezes deixou-se envolver em devaneios na tentativa de mostrar a sua qualidade técnica. À parte disso, não se escondeu do jogo. Procurou impulsionar a sua equipa para a frente, e demonstrou personalidade. Se muitos viram um jogador que catalogaram mediano, não o podem acusar de, em tenra idade, não ter arriscado. Assumiu o jogo com todos os defeitos e virtudes que possui. Digno.

A personalidade e o estilo de André Gomes são muito peculiares. É algo enigmático, quase. Jovem e com boa margem de progressão, tem apaixonado o Mestalla. Veremos que dimensão assumirá o seu futebol a médio prazo, numa curiosidade decerto transversal à maioria dos amantes do desporto rei.

Boas Apostas!