Parece um silogismo lógico, defender que, para que uns fiquem melhores, outros têm de ficar piores. No entanto, não tem sido esse o caminho das principais ligas europeias, onde uma distribuição equitativa dos prémios e as negociações coletivas dos direitos de transmissão vão alimentando o crescimento de equipas que, até há pouco tempo, dificilmente poderiam competir com os melhores. Ainda assim, em Portugal, contrariando até o discurso do recém-eleito Presidente da Liga, tudo indica que as coisas vão ficar melhor para uns, podendo acabar por ficar bem pior para a maioria.

O que interessa a Liga NOS?

Futebol na televisão

Qual o canal onde poderemos ver os três grandes no futuro?

Esta tem sido uma das grandes discussões das últimas semanas, sobretudo quando olhamos como os treinadores dos principais clubes portugueses fazem a gestão dos seus ativos. FC Porto e SL Benfica marcaram, desde o início da época, as competições europeias como uma prioridade. Estavam, desde logo, diretamente apurados para jogar a Liga dos Campeões e, aí, os ganhos económicos são diretos. Cada resultado vale um prémio pré-determinado em Euros, enquanto a exposição dos seus ativos nesses campos é uma garantia que qualquer clube grande europeu exige no momento de fazer uma contratação de milhões.

Por outro lado, o Sporting colocou sempre o seu ênfase na Liga NOS. Para começar, só se entra na Liga dos Campeões depois de uma época de sucesso a nível nacional, e apesar de tudo a do Sporting falhou nesse capítulo, o ano passado. Em segundo lugar, é aceitável pensar que os Leões partiam de trás, em termos de valor comercial da sua candidatura à presente temporada, ainda que esta tenha enchido à custa da contratação de Jorge Jesus. Para já, o Sporting vai tendo tudo aquilo que esperava. O primeiro lugar na Liga NOS, essencial para a projeção da sua aposta, tendo nas mãos a continuidade na Liga Europa, que não sendo muito valorizada neste momento, poderá vir a ser de grande importância daqui a uns meses.

Mas todos querem ganhá-la, não?

Pois essa parece ser a pergunta do milhão de dólares. Quando uma equipa aposta na Europa está, de facto, a fazer o quê? A dizer que, na primeira metade da temporada tem que fazer um encaixe financeiro direto para que, na segunda metade, se dedique de corpo e alma à conquista da Liga portuguesa, até porque mesmo os grandes feitos europeus dos últimos anos, como uma chegada aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, constitui-se, na prática, em apenas quatro jogos a partir de fevereiro.

Em última análise, é na Liga NOS que as equipas serão julgadas lá para o final da temporada. Poderão ter uma espécie de amaciadores dos piores balanços, com uma vitória na Taça de Portugal ou o sucesso europeu já descrito, mas a grande prova é mesmo o título na Liga NOS. E porquê? Ora, se dúvidas subsistissem, os rumores que se começam a ouvir esta semana são bem claros. São os títulos que transformam as hipóteses em oportunidades. O Benfica terá recebido uma proposta que valoriza a transmissão dos seus encontros nos canais nacionais em 40 milhões de euros, exatamente o valor que levou a administração de Luís Filipe Vieira a criar a Benfica TV. Num momento de crise – o Benfica não tinha sido campeão no ano anterior -, terá feito sentido fazer o finca-pé e atrasado a decisão para tempos melhores. Depois de um bicampeonato, e com o mercado televisivo de novo em efervescência com a multiplicação dos seus players, os valores voltam a subir para números que não podem ser desmascarados por nuvens de fumo.

Todos diferentes, todos diferentes

Estadio da Luz

Sairá o Estádio da Luz da BTV?

Ora, a notícia das propostas aumentadas dos valores pagos ao Benfica para as transmissões televisivas só podem vir a marcar as diferenças entre as equipas no futuro próximo. A verdade é que o Benfica, tal como o FC Porto e o Sporting, cada um à sua dimensão, valem muito mais do que a Liga NOS no seu todo. A capacidade que estas três equipas têm de se financiar, seja junto de investidores, seja nas competições em que participa, são muito superiores às dos seus concorrentes, pelo que aquilo que podemos acabar por ter para vender, enquanto Liga NOS, são jogos de sentido único como o último Sporting – Belenenses. Se em Portugal ainda poderá haver quem se contente por estar noventa minutos à espera da perda de pontos do seu rival, fora do país ninguém quererá saber.

A negociação passa, assim, inteira, para o terreno das marcas. Estar associado a uma marca como Benfica, FC Porto ou Sporting, vale os 40 milhões oferecidos aos encarnados, que, como bem sabemos, poderão vir a ser replicados no caso dos azuis e brancos, sendo que é para aí que se dirigem os verde e brancos desde que contrataram Jorge Jesus. Não é que Portugal seja um caso fora da norma a nível europeu – de certa forma, outras ligas como a italiana ou a espanhola já passaram, exatamente, por este mesmo problema. Os espanhóis estão, neste momento, a negociar uma venda que os fará sair do círculo vicioso que leva os grandes a serem maiores e os pequenos a serem menores. Por cá, ainda vamos ter que esperar.